08/06/15

Na cinemateca

Vesti um vestido com florinhas minúsculas, umas sandálias rasas e empurrei o cabelo para trás com a bandolete dos phones. Enquanto trabalhava e ouvia música, assomou-se à minha mesa uma mulher (soube que era uma mulher porque me cheirava a perfume de crescida). Olhei para cima e parecia que gesticulava para mim com energia. Tinha um vestido justo ao corpo e uns sapatos altos de verniz. Era mesmo bonita. Tirei a música dos ouvidos e reconheci-lhe o sotaque de São Miguel. Perguntou-me se eu era a Laura, e eu sabia que a reconhecia de algum lado, mas não estava a ver.

Afinal era uma colega da escola primária. A colega que eu mais detestava na escola, a falar-me de um modo confiante, cheio de vontade, a fazer-me perguntas sobre a minha vida, a contar-me de todos os seus projectos. Fiquei em silêncio a maior parte do tempo, só a olhar. Ali estava eu, outra vez, com um vestido às florinhas, com o cabelo meio desgrenhado, como se a minha existência fosse uma ameaça para mim própria.


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