23/06/15

Dos embustes

O grande embuste da minha vida foi ter feito a minha mãe comprar-me uma calculadora daquelas que faziam gráficos sozinha. Tinha uma científica da casio, preta e feia, com uns botões cor de vinho que eu riscava com as unhas. Mas a professora de matemática mandou comprar a outra, mãe, a outra é que é boa para o secundário, mãe, vá lá. Lembro-me que foi cara e que se podiam mudar as capas do teclado.

A máquina foi importante para outras coisas: escrevia uma equação à toa e os gráficos que saíam eram sempre muito bonitos. O que eu mais gostava era de escrever 'y=x' e ver uma diagonal perfeita a ser desenhada e passar pelo 0,0. Mas o professor não achou nada de especial quando eu lhe disse 'já viu? Uma linha que passa por dois zeros é alguma coisa, não deixa de ser linha, mesmo que passe pelo zero, zero, mesmo que passe pelo nada! É como passar por um buraco negro!'. Estava verdadeiramente feliz com a minha descoberta, mas ele perguntou-me se tinha aprendido alguma coisa nas aulas.

Irritavam-me as parábolas e esse foi o segundo embuste. Perguntei à minha explicadora por que se chamavam parábolas e ela respondeu que pergunta estúpida. Disse para estudar, se não queria ser taxista. Então fui estudar, porque não queria ser taxista.

O terceiro embuste foi quando lhe disse, à explicadora de matemática, que ia para filosofia. Ela respondeu para filosofia? Vais ser taxista.
Fiquei triste, eu tinha cumprido o que ela tinha dito: tinha estudado e continuava sem saber por que as parábolas se chamavam parábolas.

2 comentários:

Laura disse...

Mas agora tirei dúvidas:

Do gr. parabolé, comparação, aproximação; daí, parábola discurso alegórico; encontro, baque, choque; acto de se afastar do caminho direito; projecção (dos raios solares); conjunção de astros; em geometria, parábola, secção cónica; paralelogramo construído sobre uma linha recta dada; em aritmética, divisão»; pelo lat. Parábola, «em retórica, comparação semelhança; parábola, provérbio; depois, na Vulgata, palavra (assumpta parabola, «tendo tomado a palavra», em Números, XXIII, 7)». Esta última acepção espalhou-se pelos romances (à excepção do Romeno), conseguindo superar verbum [= palavra]. Parece que no latim vulgar da Hispânia houve uma forma *parabla, postulada por alguns dos romances locais.

Do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

(espero que isto não faça de mim taxista.)

josé luís disse...

menina, depressa, siga-me aquele táxi!