29/06/15

Nós - Quando saímos à rua

Gostam de nos olhar 'assim' e de dizerem que somos 'assim'.
Por isso é que vamos aos pares.

Sobre não se perder as coisas


Eu pergunto-me por que raio alguém anuncia a sua poesia em forma de publicidade. Ou por que anuncia alguém a sua poesia. É estranho, não é?

25/06/15

Falhanço linguístico

Não me deixavam usar a palavra 'mania'. Em vez dessa, devia dizer 'hábito'.
Mas o hábito não faz o monge, nem a mania faz o louco.

Circo de Feras


Nunca percebi por que continuo a gostar tanto desta música, mas continuo, pronto.

Falinhas mansas

Falava com Deus no mesmo tom com que falava ao meu Pai. Assim: 'olha, Deus, amanhã falo contigo, está bem? Agora vou jantar. Um beijinho.' Às vezes, até rezava de joelhos.
Depois, deixei de acreditar n'Ele.

23/06/15

Dos embustes

O grande embuste da minha vida foi ter feito a minha mãe comprar-me uma calculadora daquelas que faziam gráficos sozinha. Tinha uma científica da casio, preta e feia, com uns botões cor de vinho que eu riscava com as unhas. Mas a professora de matemática mandou comprar a outra, mãe, a outra é que é boa para o secundário, mãe, vá lá. Lembro-me que foi cara e que se podiam mudar as capas do teclado.

A máquina foi importante para outras coisas: escrevia uma equação à toa e os gráficos que saíam eram sempre muito bonitos. O que eu mais gostava era de escrever 'y=x' e ver uma diagonal perfeita a ser desenhada e passar pelo 0,0. Mas o professor não achou nada de especial quando eu lhe disse 'já viu? Uma linha que passa por dois zeros é alguma coisa, não deixa de ser linha, mesmo que passe pelo zero, zero, mesmo que passe pelo nada! É como passar por um buraco negro!'. Estava verdadeiramente feliz com a minha descoberta, mas ele perguntou-me se tinha aprendido alguma coisa nas aulas.

Irritavam-me as parábolas e esse foi o segundo embuste. Perguntei à minha explicadora por que se chamavam parábolas e ela respondeu que pergunta estúpida. Disse para estudar, se não queria ser taxista. Então fui estudar, porque não queria ser taxista.

O terceiro embuste foi quando lhe disse, à explicadora de matemática, que ia para filosofia. Ela respondeu para filosofia? Vais ser taxista.
Fiquei triste, eu tinha cumprido o que ela tinha dito: tinha estudado e continuava sem saber por que as parábolas se chamavam parábolas.

Ontem fiz anos, como toda a gente que faz anos









21/06/15

Dos cheirinhos

A minha mãe cheirava a tabaco misturado com perfume e era o melhor cheiro do mundo. Às vezes só cheirava a tabaco e era SG Filtro, daquelas embalagens moles.
Depois decidiu deixar de fumar e agora já ninguém cheira a mãe.

18/06/15

Coisas que descobrimos

Se taparmos 1/3 da sobrancelha com o dedo e nos olharmos ao espelho, ficamos com ar de japonês.

Anoitecer

Sempre detestei o final do dia. Sinto que se acabam todas as possibilidades de existir; não gosto de me preparar para ir dormir nem nunca entendi aquelas pessoas que gostam de beber uma bebida a ver o anoitecer. Mas não é bem do escuro que tenho medo; é da sensação diária de me sentir acabada.

Numa conferência sobre um tema francamente desinteressante, oiço o orador dizer 'the hour before dawn is the darkest'. Na minha cabeça, dawn não me soou a amanhecer. Ficou assim: the hour before the sunset is the darkest. O que, pensando bem, deve ser um pensamento à cowboy: quem fica alerta por eles enquanto dormem?

Eu - Agora


14/06/15

Raízes

Parece que me crescem raízes na bexiga (onde pequenas lagartas querem fazer ninho).

Uma faca só lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

João Cabral de Melo Neto

Foguete


Conheci esta versão há sete anos e desde aí, ouvi-a sempre com muito amor. Depois, um acontecimento muito feliz, talvez o mais feliz da minha vida, deu-lhe o significado que faltava. Na noite passada, sonhei que dava à luz enquanto o Caetano ele próprio e a Maria Betânia cantavam ao vivo na sala de partos. Acordei com tanta pena que o sonho tivesse acabado, que a partir de agora, a única coisa que quero é ouvir isto ao vivo.

O nosso amor é tão bonito, tão sincero, feito festa de São João.

13/06/15

De ter sempre uma enorme vontade de rir

Sempre que me acontece alguma coisa má, tenho vontade de rir. Quando alguém morre, não me consigo controlar, tenho sempre de esboçar um sorriso ou se uma amiga me conta um mau episódio da sua vida, eu agarro sempre as bochechas com as mãos e finjo que tenho comichão na cara.

Normalmente, quanto mais grave é o episódio, mais vontade tenho de dar uma boa gargalhada, apesar da tristeza. Diziam-me que isto passava com a idade, mas hoje eu pensei mesmo que ia morrer de aguentar o riso. E, apesar disso, estava tão triste.

11/06/15

O fetiche do texto

O texto é um objecto de fetiche e esse fetiche deseja-me. O texto escolhe-me, através de toda uma disposição de telas invisíveis, de chicanas selectivas: o vocabulário, as referências, etc; e, perdido no meio do texto, há sempre o outro, o autor.

Roland Barthes, O Prazer do Texto, Ed. 70, 1973.

10/06/15

Bem-quisto

Fulano é bem-quisto significa que fulano é uma pessoa amada. Não serei a única a achar estranho, certo?

Chega de Saudade


Abraços e beijinhos
e carinhos
sem ter fim.

Sobre o Orgasmo (esclarecimento para mim própria)

Quando publiquei este post, estava longe de imaginar que ele vinha de outro lado. Achei mesmo que tinha sido extremamente inteligente pensar em orgasmo como morte pequena. Hoje, em conversa, descobri que petite mort é a expressão para orgasmo em francês.
Devo confessar que fiquei desencantada.

09/06/15

Eu - Esta noite

Parece que os dias longos me inspiram.
(Ou, pelo menos, dão-me esperança de que consigo fazer alguma coisa.)

08/06/15

Da limonada

Fiz limonada com pouca água e juntei-lhe dois adoçantes. Pensei 'Oh que docinha que está esta limonada!' e bebi até ao fim. Depois reparei que os adoçantes tinham caído ao lado do copo e vim aqui relatar este facto.

Daisuke Takakura








Da série 'Monodramatic'.
Parece que este japonês é a minha alma gémea visual.

Amanhã

Sou voluntária numa conferência durante os próximos quatro dias.
Enviaram-me a lista de tarefas e entre uma sem-número delas, constam estas duas:



Não sei o que esperam de mim, mas isto vai ser complicado.

Fantasma enfrenta a morte de um mosquito

Eiho Hirezaki (1881-1968)

Na cinemateca

Vesti um vestido com florinhas minúsculas, umas sandálias rasas e empurrei o cabelo para trás com a bandolete dos phones. Enquanto trabalhava e ouvia música, assomou-se à minha mesa uma mulher (soube que era uma mulher porque me cheirava a perfume de crescida). Olhei para cima e parecia que gesticulava para mim com energia. Tinha um vestido justo ao corpo e uns sapatos altos de verniz. Era mesmo bonita. Tirei a música dos ouvidos e reconheci-lhe o sotaque de São Miguel. Perguntou-me se eu era a Laura, e eu sabia que a reconhecia de algum lado, mas não estava a ver.

Afinal era uma colega da escola primária. A colega que eu mais detestava na escola, a falar-me de um modo confiante, cheio de vontade, a fazer-me perguntas sobre a minha vida, a contar-me de todos os seus projectos. Fiquei em silêncio a maior parte do tempo, só a olhar. Ali estava eu, outra vez, com um vestido às florinhas, com o cabelo meio desgrenhado, como se a minha existência fosse uma ameaça para mim própria.


Eu - Quando me perguntam se quero o café quente ou bem quente

A minha mente deixa de ser marota
para passar a ser assassina.
Então peço delicadamente um copo de gelo. E ai deles se mo cobram!
(mas cobram... 10 cêntimos.)

Sonhos (2)

Sonhei que dizia à minha mãe que queria entrar em Belas Artes. Ela perguntava-me para quê e eu respondia que estava farta de Filosofia. A sua cabeça transformava-se na de um lobo e ela rugia: desenha-me, se tens a mania que sabes!
Como eu não faço dois traços seguidos, acordei em desespero e pensei que o melhor era vir escrever.

07/06/15

Paris Texas


O meu alter ego é a Jane e que ninguém me contradiga.

Torn

Acordei com esta porcariazinha na cabeça. 
Tomem vocês também, que eu não aguento estar em loop sozinha.

Do dia (33)

Não consigo parar de pensar em que dia a minha mãe terá casado com o meu pai, mas sei que foi vestida de cor-de-rosa e a cor parece-me mais importante que o dia. Abri um cigarro ao meio, espalhei pelas mãos e cheirei. Os cigarros só me servem para isso: para trucidá-los sem piedade e lembrar-me dos colinhos de infância.

06/06/15

A ler

ITO Shoha (1877-1968)

A última carreira

Esvai-se o zumbido do último autocarro
nas profundezas
da medula
nocturna.

É próprio das estrelas palpitarem
quando não explodem.

Não há outras civilizações.
não há senão o doce
medo galáctico
sobre um fundo de metano.

Miroslav Holub, que não conhecia e encontrei neste blog.

Eu - Quando saio à rua com a minha família

Não queremos que o mundo nos contamine.
A alternativa é nunca sairmos de casa (optamos por ela várias vezes).

Atenção ao martelo!

Os posters de prevenção no trabalho na URSS eram especialmente importantes, porque grande parte da classe trabalhadora era analfabeta. Importantes e gráficos, para não haver dúvidas. 

Seleccionei deste artigo e podem ver-se mais informações aqui.








05/06/15

Baloiço

Uma menina a segurar a corda
é uma menina à beira do abismo.

Quando eu engravidar, tiras-me fotografias?

Annie Leibovitz, por Susan Sontag

Carta ao P (17)

And sometimes I feel as if, already,
I am not here-to stand in his thirty-year
sight, and not in love's sight,
I feel an invisibility
like a neutron in a cloud chamber buried in a mile-long
accelerator, where what cannot
be seen is inferred by what the visible
does.

Excerto do poema Unspeakable, de Sharon Olds.

(It is lo and behold.)

04/06/15

'Gosto de fazer anos'

Hoje é dia de festa. Sei que é dia de festa porque faz de conta que nasci hoje, só que não nasci hoje, hoje, nasci hoje há dez anos e isso não é hoje, é há dez anos, por isso hoje não aconteceu nada.

Gosto de fazer anos, mas não sei o que é fazer anos mesmo, porque se estou crescida mais um bocadinho todos os dias, faço um ano [em relação] ao ano passado, mas só um dia desde ontem. Não sei por que é mais importante um ano do que um dia, mas recebo prendas, por isso deve ser importante.

As pessoas gostam que eu faça anos.

Composição minha sobre o meu aniversário para a minha professora da quarta classe (com as devidas correcções).

Desgostos alimentares

Puré de batata
Favas
Ameixas amarelas
Gelado de morango

Na biblioteca

'-Tem o livro x?'
'-Sim, vou buscar. Mas tem a certeza que quer em português?'
'-Sim...'
'-É tão bom ver estrangeiros a aprender a nossa língua! Mas ainda tem um bocadinho de sotaque!'

Uma catadupa de questões absorveram-me o pensamento.

Do dia (32)

Acordei depois de cinco horas a dormir. Beijo, beijo, beijo, banho, banho, banho, a casa de banho inundou como sempre, não limpei o chão e achei que secava ao sol, como sempre. E secou. Não tinha  pequeno-almoço em casa, nunca tenho, mas tinha arroz de marisco congelado, só que não era um bom pequeno-almoço. Trabalhei. Ouvi a mesma música durante cinco horas seguidas. Vi uma exposição e fiquei desiludida. Adormeci tão cansada, a falar em filhos, em parto, em não estar sozinha e em ser acompanhada às ecografias. Estou estranhamente pronta para engravidar.


O amor e o indivíduo

O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.

Lou Andreas-Salomé

Eu - A acordar esta manhã

É mentira, marotinhos!
Acordei tão despenteada, que a moçoila me disse que
se o psicólogo me visse assim,
internava-me.
Vou começar a usar rolos.

03/06/15

Carta ao Pai (16)


O Cartola e o seu pai não se falaram durante quarenta anos. Quando se reencontraram, porque o Cartola teve que voltar a viver com ele por ter contraído dívidas, foram filmados. O resultado foi este: o pai pediu-lhe para tocar esta música que me fala muito dentro (e com toda a certeza, a ele também).

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Carinhoso


Ontem foi um dia muito importante para mim.
(nunca te esqueças, Laura.)

02/06/15

Eu - Quando o meu interior me pergunta que raio estou a fazer

Oh damn.

Pára-me de repente o pensamento

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na douda correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na douda correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima, in 'Antologia Poética'

01/06/15

A passagem secreta da minha casa para a tua


(é para não me esquecer.) 

(pa)i, p(ai)

Pai

-Pa-pa-pa-pa (tum-tum-tum!)
pá!-pá!-pá!
-ai!-ai!-ai!

-pá!
-ai! ai...
-pá!


Da série: conselhos (2)


As Primaveras

Adoro bibliotecas no Verão.
Adoro Primaveras no Verão.

Laura, a cela

lauras.f(a1710ant. nos primeiros tempos da Igreja, cada uma das celas ou antros em que viviam os anacoretas, sem estar em comunidade ant. mosteiro (entre os cristãos do OrienteETIMOLOGIAlat.tar. laūra,ae 'caminho entre as rochas', este do gr.biz. laúra,as 'mosteiro', cf. gr. laúra,as 'caminho estreito, corredor'Pronto, é isto. Parece que sou solitária de nome e não sabia.