30/05/15

Do cancro

O meu pai dizia que ter cancro era como ter um amigo dentro de nós do qual não nos podemos desfazer, que sabemos que nos vai matar, mas não sabemos quando.
Eu calculo que deva ser como ter um pai, mas isso o meu pai não dizia.
Não se apregoam as coisas óbvias, não é?

Vai (menina amanhã de manhã)


Nunca mais me vou esquecer de como conheci esta música
e de como ela marcou este ano.

Refém

Refeita
Refei-ta
Refém-ta
Refém

Eu - Na paragem de autocarro a escrever no meu diário

Agora que retiraram a política de nudez,
já me posso voltar a expor.
Feeling so wild!

29/05/15

Os jacarandás em Lisboa

Conhecemo-nos por esta altura e a miúda disse-me logo que não gostava de jacarandás. Eu nunca lhes tinha prestado muita atenção, mas ela reclamou muito, disse que toda a gente gostava daquele roxo nojentinho que se pegava aos pés por onde quer que passasse. Até me ameaçou e disse que eu ia ver, aquilo era pior que pastilha. 
No outro dia, olhei para os jacarandás ali ao pé da Guilherme Cossul. Tudo é roxo até ao Rato e num espaço relativamente pequeno, sete pessoas tiravam fotografias àqueles cabelinhos, como quem nunca viu uma flor. Fiquei com uma raivinha e dei-lhe razão: os jacarandás são o Pedro Chagas Freitas das árvores.

Casas ou lês?




Zorba, O Grego
(Frames retirados por mim)

26/05/15

Eu - Quando descubro coisas novas

Parece que a minha vida
andou com truquezinhos na manga.
Ora obrigadinha!

Confissões

A catequista obrigava-nos a confessar. Então eu ia. O padre perguntava quais eram os meus pecados, mas eu achava que não tinha nenhuns, por isso inventava que dizia palavrões. Achava-me muito inteligente: conseguia pecar no momento em que não devia pecar. O padre mandava-me rezar não sei quantas avé marias e eu só sussurrava a reza. No final, dizia para mim 'desculpa, Jesus' e ficava tudo bem.


A ir

Os prazos para concorrer a doutoramento estão aí. A Laura com 15 anos está radiante, yey, doutoramento! 
(A Laura de agora está a morrer de medo.)

19/05/15

O toureiro

O Pamplona tinha seis anos e tinha sempre ranho no nariz. Eu lembro-me porque eu também tinha seis anos e dava-me logo uma impressão quando ele se aproximava.  Brincávamos aos touros no recreio: eu era o touro e ele, o toureiro. Eu nunca queria que ele fosse o animal, porque tinha medo que me sujasse a camisola de ranho.
Uma vez, um menino empurrou-o na aula de educação física e o nariz dele aterrou no meu cabelo. Eu  fiquei imóvel de nojo e ele, sem reservas, diz 'domei o touro, finalmente! Touro lindo, touro lindo'.

Eu vivia na ilha terceira e ele agora é toureiro.

18/05/15

Reescrever provérbios

Escrever direito por linhas próprias.

Na explicação

'- Diz-me lá porque é que Hume era um céptico moderado.'
'- Porque fazia com calma.'

Caroline South



 
 
 

 

Descobri este Instagram há algum tempo e todos os dias me impressiona. Sinto-me compreendida do outro lado do mundo (e é tão bom!).
Vale mesmo, mesmo a pena.

11/05/15

Rita


Maravilhinha.
Quem não gosta é ovo podre.

Dos sobressaltos

Lavar os dentes, olhar para o corpo já coberto, deitar-me, sentir a cabeça em cima das minhas maminhas, ver fechar os olhos, ouvir que o meu colinho é bom, perguntar se posso contar uma história, inventar uma história, contá-la até ao fim mesmo que já oiça dormir, dar beijinho e continuar a ler.
Apagar a luz, desfazer o colinho, enlaçar as pernas, adormecer. Acordar a meio da noite, ouvir pezinhos de lã, ouvir se estou a dormir, responder que não, ouvir desejos, fazer força para não me esquecer dos desejos, manter-me acordada no escuro, pensar que não sei se estou a dormir, passarem dez minutos ou uma hora, ouvir dormir e adormecer outra vez.
Acordar com um pontapé de sono sobressaltado, agarrar as pernas com as minhas pernas, segredar para dormir bem, ouvir que ainda bem que estou ali e adormecer. Acordar cedo ainda com a mão dada do pesadelo da noite e ficar a pensar que nunca tinha conhecido ninguém que cheirasse tão bem de manhã.

Maria Andrade

Maria Andrade
depois de Túlio a beijar
na boca
pela primeira vez
diz a Túlio
que Túlio é a primeira
pessoa
a beijá-la na boca
de facto
ela já tinha beijado
as avós na boca
mas as bocas fechadas
e frias
das avós
eram como papel
de embrulho
ou mata-borrão
mas agora Maria Andrade
descobre
que o morango
que come
a morde
gostaste?
sim!
Túlio não volta
a beijar
Maria Andrade pede-lhe
que o faça
Túlio fá-lo

Adília Lopes, Obra (falha-me a referência, o poema é encontrado na internet porque o li ontem no livro).

Gosto tanto de ler poesia em voz alta.

Dia da mãe

A minha mãe preferia ser artista ou escritora.
Eu sei porque, na segunda classe, tínhamos que fazer um inquérito aos pais que vinha no livro de português. Perguntava assim: 'gosta do que faz?'. A minha mãe encolheu os ombros e disse que mais ou menos. Perante a minha surpresa, acrescentou depressa que preferia ser artista ou escritora. Só que eu procurei na lista de profissões abaixo onde é que essas estavam e não estavam. Escrevi: 'gosta do que faz, mas preferia ter uma profissão invisível'.

Aniversários

Daqui a um mês, faço anos. Pronto, um mês e uma semana. Já tenho programa, veio-me à cabeça ontem à noite. Está a deixar-me tão feliz este pensamento, que parece que comecei a fazer anos hoje.


Diário

Mantenho diários há alguns anos. Começou na infância, quando punha folhas de árvores no meio dos livros da minha mãe e depois colava em papel, ao acaso. Comecei a escrever, mas sempre tiveram muito poucas palavras. Guardam colagens, bocadinhos de coisas, nódoas de vinho em papel de restaurante e às vezes, ideias que tenho para qualquer coisa.

Eles não são verdadeiramente íntimos: não, isto não é verdade;  não são secretos, há poucas coisas que lá estejam que não possam ser lidas, vistas ou contadas em voz alta. Aprendi a esconder-me muito bem e às vezes, gosto de mostrar algumas partes ou ler em voz alta pequenas passagens a outras pessoas. É que preciso de confirmar que aquilo que quero passar, só passa para mim e para alguns.

O meu diário está sempre na sombra, mesmo que esteja à vista de todos. Acho que é por isso que os continuo: até no sítio mais escondido, está escondido dos olhares dos outros, mesmo quando eles o vêem.

04/05/15

Esconder tudo

Sonhei que subia muito, muito, por uma alameda. Quando chegava lá acima, uns homens pediam-me para revelar o segredo. Eu não dizia nada, porque não sabia o que dizer. De repente, olhava para os braços e estavam cobertos de nódoas negras. O cenário mudava, agora estava dentro de uma caixa. Era o meu próprio funeral e eu sabia que tinha morrido porque não eram aconselháveis pessoas que escondiam coisas.
Foi uma noite riquíssima para o Freud.

01/05/15