02/04/15

Das viagens

Proust dormiu toda a sua vida no seu quarto de infância. Kant nunca saiu da sua cidade - exceptuando num momento em que foi visitar a tia a uns escassos quilómetros (e não gostou). Kafka, apesar de ter viajado bastante com o amigo Max Brod, parece que nunca tomou essas viagens como determinantes para o seu desenvolvimento intelectual ou da sua escrita.

Há uns bons meses, depois de uma discussão acesa sobre a necessidade que algumas pessoas têm de viajar, que penso que as minhas viagens até aí tinham sido pouco para dentro. Não é que tenha um interior riquíssimo, mas acho que já cheguei a melhores conclusões durante conversas numa sala aleatória num sítio qualquer.

Tenho andado a pensar nisto depois de ter escrito um texto que relaciona o facto do Kafka ter construído a imagem de Deus à imagem que tinha do seu pai. Ramificamo-nos pelos caminhos mais estranhos e agora entendo por que as viagens, para ele, não foram determinantes: porque havia sempre um fantasma por cima de si que não o deixava sair. Onde é que ele se podia esconder? Dentro. Mas nem aí estava a salvo, se Deus o possuía - se o pai o possuía.
Viajar servia-lhe de pouco para aliviar a tensão.

2 comentários:

{anita} disse...

É incrível como uma só conversa pode abrir uma porta tão secreta para o nosso interior. Também nunca mais fui a mesma depois desse dia... Foi uma longa viagem :)

Laura disse...

Podes crer, Anita. Apesar de não ter sido a mesma depois dessa conversa, comecei uma viagem radical ao meu interior quando te conheci. :)