08/04/15

A última carta de Kafka (aos pais) antes de morrer

Esta carta foi escrita por Kafka aos seus pais quando se encontrava internado num dos melhores sanatórios (sanatório Kierling, perto de Viena) por tuberculose. Escreveu-a na segunda-feira, no final desse dia e no dia seguinte de manhã, trabalhou nos seus contos e à tarde, morreu, sem a visita dos pais.

'Queridíssimos pais

Então essas visitas que mencionam às vezes? Todos os dias penso nisso, pois para mim têm muita importância. Era tão bom, há tanto tempo que já não estamos juntos, pois a reunião em Praga não conta; isso era um transtorno de vida mas seria agradável passar uns dias em paz, juntos, num ambiente lindo, sozinhos; nem me lembro já de quando isso sucedeu. (...)

Isso e muitas coisas são razões para a visita, mas concordo que é pedir demasiado. Ora, primeiro é provável que o pai não possa vir por causa de dificuldades com o passaporte. Isto, evidentemente, rouba uma grande parte do significado à visita e sobretudo ficará a mãe, seja quem for que a acompanhe, demasiadamente ocupada comigo, reduzida apenas à minha companhia, já que não sou muito bonito.

A surpresa da história com a minha laringe [Kafka ficou impossibilitado de falar por causa da tuberculose que lhe apanhou a laringe] enfraqueceu-me mais no princípio do que era razoável.

Só agora consigo vencer todas estas fraquezas com a ajuda, cuja importância é impossível de imaginar, da Dora [Dymant, a sua companheira] e do Robert [Klopstock, o seu médico]. (...) Ultimamente um dos professores verificou uma nítida melhora da laringe e as suas palavras confortaram-me muito. Tudo está, como já disse, nos melhores começos, mas os melhores começos ainda não são nada; se não se pode mostrar numa visita - e ainda mais uma visita como seria a vossa - grandes, inegáveis progressos, visíveis a um olhar não profissional, então é melhor desistir. (...)'

Max Brod, Franz Kafka, Documentos do Tempo Presente, Editora Ulisseia, 1954.

Sem comentários: