30/04/15

A mesma natureza e sentidos diferentes

Há coisas que, apesar de terem a mesma natureza, têm interiores diferentes. Por exemplo, um café ao sol. Ambos quentes, mas não combinam. Mãos molhadas depois de lavadas, à chuva. Não sei porquê, mas para mim, nada disto funciona.

23/04/15

Eu - A ver pintar


Philip Roth e Primo Levi

Eu não fazia ideia que esta maravilhosa entrevista tinha acontecido.

A Maria João

A Maria João foi a primeira mulher que me amou sem ser obrigada a isso. Ia buscar-me ao colégio para almoçar esparguete com carne moída e deixava-me não usar o guardanapo no pescoço. Dava-me leite-creme ao lanche e tratava-me por Laurinha. Sou do FCP porque a Maria João era e usava bandoletes com uma poupinha à frente porque a Maria João usava.
Um dia, a Maria João construiu para mim um pequeno elevador de cartão, para os meus Legos poderem subir para cima do armário sem eu ter que fingir um elevador. Eu lembro-me disto porque foi o último dia em que a vi. Dormi no seu sofá-cama da sala e uns dias depois, eu e a minha mãe mudámos de ilha.
Às vezes, tenho muitas saudades dela. É que não a vejo desde os meus seis anos.

Like a Bird on a Wire


Que beleza.

Os destruidores de sociedades













O primeiro filme de Fassbinder em que o próprio é actor, Love is Colder than Death, foi muitíssimo mal recebido pela crítica. Nomeadamente no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1969, onde foi vexado. 
Estes screenshots são retirados por mim deste pequeno vídeo, no Festival, onde o próprio é questionado (e mal compreendido).

Lista #4

As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (a Marlene)
É a Aless (o rapaz no fiorde)

Dos enganos a si próprio

-Falou de liberdade económica. Um escritor precisa dela?

-Não. Um escritor não precisa de liberdade económica. Precisa apenas de um lápis e de algum papel. Nunca tive conhecimento de nada de bom na escrita que tivesse resultado da aceitação de um presente ou de dinheiro. Um bom escritor nunca se candidata a uma fundação. Está demasiado ocupado a escrever qualquer coisa. Se ele não for um escritor de primeira engana-se a si próprio dizendo que não tem tempo ou que lhe faltam as condições económicas necessárias. A boa arte pode surgir vinda de ladrões, de contrabandistas ou de moços de estrebaria. As pessoas, de facto, têm medo de descobrir até que ponto aguentam a adversidade e a pobreza. Têm medo de descobrir até que ponto resistem. Nada pode destruir um bom escritor. A única coisa que pode afectar um bom escritor é a morte.


William Faulkner, Entrevistas da Paris Review (Tinta da china, 2009)

21/04/15

Das liberdades

Tão fora disto tudo, que nem me lembrava que estamos a uns dias do 25 de Abril. Crucifiquem-me. Ah, espera, isso é dos Cristãos.

Manhattan Skyline


Esta é uma pequena maravilha do mundo. 
Aliás, este grupo. 

20/04/15

Das viagens (2)

-E o que buscais vós nesta viagem? - perguntou, sentando-se num banco ao lado do almofariz e da balança, na pequena cela aconchegada onde se armazenavam as drogas.
-Diabos, principalmente - disse John com um esgar sorridente.

Rudyard Kipling, O Olho de Alá, Campo das Letras, P. 14.

Funeral Canticle


Das impressões

Quando estudei Fernando Pessoa, carregava sempre um livrinho com capa roxa e letras douradas, com comentários do António Quadros. Era uma edição da minha mãe, já antiga e muito sublinhada, que me cabia na mochila. Uma vez, no teste, lá estava a comentar um poema qualquer, quando decidi que haveria de citar o dito. Só que, em vez de escrever António Quadros, escrevi António Obras.

19/04/15

Na explicação (ou A Alegoria da Caverna digital)

'-A alegoria da Caverna é como ficar numa sala de cinema muito tempo e depois sair; mas esse muito tempo é para o resto da vida para algumas pessoas. São uma espécie de viciados no escuro. São cineastas sofistas.'

(I rest my case.)

18/04/15

Ana Maria

Lá no colégio de freiras, cantávamos odes à Ana Maria Javouhey. Só que eu dizia sempre Ana Maria Já Voou. Fazia-me sentido, nessa altura eu era muito religiosa e pedi à minha mãe para me baptizar. Foi quando a minha família se começou a partir. Fiquei um bocado de Deus, outro bocado da minha mãe, depois larguei Deus e depois a minha mãe e agora só sinto aquela leveza que sentia quando me confessava. Só que é permanente e nem tenho que me confessar.

Os teus peitinhos


Pontos de encontro

Encontrar-me com a Anita tem muito que se lhe diga, porque ela escolhe sempre esculturas como referência. No outro dia, ao pé de uma pilinha gigante e hoje, ao pé de uma bicheza enorme que cumprimenta o sol. Como não quero dar parte fraca, finjo que sei qual é a escultura, chego mais cedo aos sítios e encontro-a.
O nosso primeiro ponto de encontro foi na Gulbenkian. Felizmente que já tinha vivido em Lisboa quando combinámos, por isso já sabia que não se escrevia Glubenkian, como achei que era durante meses. Caso contrário, o meu conhecimento de escultura estaria hoje comprometido, porque ela teria ficado chocada com a minha pobre cultura e nunca mais teria desejado encontrar-se comigo.

Dos desgostos de amor

Uma vez, tive um desgosto de amor muito grande. Durou uma noite e um dia. Nessa manhã, pedi à minha mãe para não ir à escola, porque estava de desgosto de amor. A minha mãe nunca me deixava faltar à escola, mas deixou. Passei o dia a ver programas da tarde na televisão minúscula do meu quarto. No dia a seguir, já tinha passado e fui.

Das desconexões

Nos últimos dias, acordo entre as 5.30 e as 6h, absolutamente desperta para o dia. Mas não sinto qualquer capacidade de me ligar com quem quer que seja. Hoje acordei, tinha uma mensagem, respondi e fiquei na cama a ler até às 9h, absorvidíssima. Acho que perdi qualquer coisa.
Nem triste, nem feliz, nem nada: noutro mundo há demasiados dias.

17/04/15

A sociedade incomodada

Mas a organização do trabalho refere-se apenas àqueles trabalhos que outros podem fazer para nós, por exemplo o de abate de animais, o do cultivo dos campos etc; os outros continuam a ser trabalhos egoístas, porque ninguém pode fazer por ti as tuas composições musicais, os teus esboços de pintura, etc.: ninguém pode substituir as obras de Rafael.

Estas são obras de um Único, e só as pode fazer, enquanto as outras poderiam ser designadas de "humanas", uma vez que o que nelas há de próprio é de somenos importância, e praticamente "qualquer pessoa" pode ser ensinada a fazê-las.

Como a sociedade só pode levar em conta os trabalhos de interesse comum ou humanos, quem produzir obras únicas não pode contar com a sua protecção, pode mesmo sentir-se incomodado com a sua intromissão. O Único emergirá da sociedade para se distinguir dela, mas a sociedade nunca produzirá nenhum Único.

Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 212.
Para a {anita}.

No café

Estou a escrever e aproxima-se uma velhinha:
'Escrever é na escola, cá fora é para trabalhar, menina!'

16/04/15

Do dia (31)

Hoje, acordei de duas em duas horas com pesadelos. Li antes de sair. Pintei os lábios de roxo. Falei de coisas fundas sem ser profunda. Escrevi. Li outras coisas. Escrevi mais. Faltei a um encontro. Li sozinha. Fiquei apática e cada vez mais triste. Tomámos café e não me consegui ligar. O miúdo deu-me mimos bons. Cheguei a casa, deixei estragar a sopa, tenho roupa para lavar, não fiz a cama. Tenho loiça empilhada, mas o chão limpo. Posso andar descalça, o que é bom porque os sapatos novos romperam-me as meias.

Eu - Quando estou sensível


Estes dias poderão
colocar em causa as mais recentes medições
do nível de água do mar.

Em Poucas Palavras


Conquistar o teu corpo como um marinheiro
Apaixonadamente teu.
Mas depois do teu adeus, do teu último beijo
Leva contigo a lembrança, a paixão, o desejo.

Mas em poucas palavras,
ficam belas e doces saudades 
de ti.

Günter Grass

Eu fiz o secundário em Ponta Delgada e tinha que apanhar, todos os dias, o autocarro para casa, cuja viagem demorava 45 minutos. Por norma, era uma viagem muito aborrecida, além do transporte ser muito mau e o caminho, com demasiadas curvas para o meu estômago.
Numa dessas viagens, pareceu-me reconhecer o senhor do casal que seguia nuns assentos adiante.
O Günter Grass e a mulher apanhavam aquele terrível autocarro, mesmo à minha frente. Tive absoluta certeza que eram eles porque fui procurar fotografias de ambos.

Enchi-me de coragem e fui lá perguntar se era quem eu achava. Recebi um olhar de surpresa e um 'não' muito tímido. Não insisti e saí na minha paragem. Era mesmo o Günter Grass, provavelmente só a querer ter umas férias descansadas.

Dança Nua


Dois dias de seguida
e ainda não me cansei.

Eu - Quando penso que tenho um irmão

An exciting idea.

Da morte

Com uma folhinha de louro minúscula no bolso do casaco.
Ser cremada e enviada para o espaço.
Com baton e perfume.
Numa campa coberta de musgo
Com o melhor fato azul de saia e casaco e, se for inverno, com o casaco de lã.
Com o cabelo arranjado.

Ao longo dos anos, parece que sou a confidente dos desejos que as pessoas têm para quando morrerem - desejos de after-party, portanto. Tive que fazer esta listinha, para não me esquecer deles.

Um ano disto

Um ano é sempre bonito. Eu cá acho que aprendi a andar pelas minhas pernas.
Parabéns a este blog :)

14/04/15

Só tu

Creio que ouvi mais vezes esta expressão que o meu próprio nome. 'Só tu para dizeres isso', 'só tu para pensares nisso'. Pergunto-me se reafirmavam a minha autenticidade de pensamento - se bem que isso seria altamente presunçoso - ou se, pelo contrário, me punham no canto dos loucos que acham as coisas mais improváveis em momentos que elas nem devem ser pensadas.
Aposto na última, porque ela traz desculpa: 'só tu' é eles desculparem-se a si próprios por eu ser sua amiga e desculparam-me a mim por ser 'assim'.

08/04/15

Maria


Todo, todo o dia a ouvir isto.

A última carta de Kafka (aos pais) antes de morrer

Esta carta foi escrita por Kafka aos seus pais quando se encontrava internado num dos melhores sanatórios (sanatório Kierling, perto de Viena) por tuberculose. Escreveu-a na segunda-feira, no final desse dia e no dia seguinte de manhã, trabalhou nos seus contos e à tarde, morreu, sem a visita dos pais.

'Queridíssimos pais

Então essas visitas que mencionam às vezes? Todos os dias penso nisso, pois para mim têm muita importância. Era tão bom, há tanto tempo que já não estamos juntos, pois a reunião em Praga não conta; isso era um transtorno de vida mas seria agradável passar uns dias em paz, juntos, num ambiente lindo, sozinhos; nem me lembro já de quando isso sucedeu. (...)

Isso e muitas coisas são razões para a visita, mas concordo que é pedir demasiado. Ora, primeiro é provável que o pai não possa vir por causa de dificuldades com o passaporte. Isto, evidentemente, rouba uma grande parte do significado à visita e sobretudo ficará a mãe, seja quem for que a acompanhe, demasiadamente ocupada comigo, reduzida apenas à minha companhia, já que não sou muito bonito.

A surpresa da história com a minha laringe [Kafka ficou impossibilitado de falar por causa da tuberculose que lhe apanhou a laringe] enfraqueceu-me mais no princípio do que era razoável.

Só agora consigo vencer todas estas fraquezas com a ajuda, cuja importância é impossível de imaginar, da Dora [Dymant, a sua companheira] e do Robert [Klopstock, o seu médico]. (...) Ultimamente um dos professores verificou uma nítida melhora da laringe e as suas palavras confortaram-me muito. Tudo está, como já disse, nos melhores começos, mas os melhores começos ainda não são nada; se não se pode mostrar numa visita - e ainda mais uma visita como seria a vossa - grandes, inegáveis progressos, visíveis a um olhar não profissional, então é melhor desistir. (...)'

Max Brod, Franz Kafka, Documentos do Tempo Presente, Editora Ulisseia, 1954.

Na explicação

- Sabes dizer-me outros pré-socráticos para além dos que estivémos a falar?
- Qual é aquela coisa que se põe no rabo para fazer cocó?
- Hã? Um clister? Mas o que é que isso tem a ver?
- O Clístenes. O Clístenes é um pré-socrático.

(As coisas que uma pessoa aprende e que nunca mais se esquece.)

03/04/15

Avarias

Muito provavelmente, o meu interior avariou-se. Eu, que sempre fui de sentimentos rápidos e certos. Acordei claustrofóbica.

02/04/15

Dia do Livro Infantil

Lembrei-me da Quinta das Cerejeiras, da Ilse Losa, de como tinha uma capa cor-de-rosa muito vivo e um desenhinho pequeno no meio. Li-o na terceira classe, a minha professora chamava-se Esperança. Trouxe o livro comigo do colégio e nunca mais o devolvi. Nem esse, nem a Alice Vieira, nem o António Torrado, que tinha escrito na primeira página 'Raquel', a dona dele. 
Mesmo depois da professora ter perguntado onde é que estavam os livros, eu não assumi. Em parte por ter medo, em parte porque gostava mesmo muito deles. 

Depois, havia O Pobre Brás, da Condessa de Ségur. O menino que comia pão com leite coalhado ao pequeno almoço e que usava uns tamancos de madeira que faziam doer os pés. Numa viagem aos EUA, li-o mais de cinco vezes - lembro-me do pormenor, porque quando cheguei à sexta vez, entrei numa competição comigo própria para ver quantas vezes conseguia lê-lo até ao fim das férias.

Havia também o Colégio das Quatro Torres, de adolescentes que estudavam num colégio interno e tomavam banho em piscinas escavadas na Cornualha. E a Dentes de Rato, uma menina que lia muito, mas que se sentia incompreendida. Ah, e o Menino Que Não Gostava de Ler, em que os pais eram grandes leitores, comiam croquetes ao almoço enquanto liam e o menino detestava - afinal, tinha miopia. 

À saída do metro

'-Menina, é esta a saída do Meco?'
'-Desculpe, de onde?'
'-Do Meco, menina, do Meco!'
'-Eu não a entendo...'
'-Menina, a saída do restaurante! Do MecoDonalds!'

(Esforcei-me para não desatar às gargalhadas.)

Das viagens

Proust dormiu toda a sua vida no seu quarto de infância. Kant nunca saiu da sua cidade - exceptuando num momento em que foi visitar a tia a uns escassos quilómetros (e não gostou). Kafka, apesar de ter viajado bastante com o amigo Max Brod, parece que nunca tomou essas viagens como determinantes para o seu desenvolvimento intelectual ou da sua escrita.

Há uns bons meses, depois de uma discussão acesa sobre a necessidade que algumas pessoas têm de viajar, que penso que as minhas viagens até aí tinham sido pouco para dentro. Não é que tenha um interior riquíssimo, mas acho que já cheguei a melhores conclusões durante conversas numa sala aleatória num sítio qualquer.

Tenho andado a pensar nisto depois de ter escrito um texto que relaciona o facto do Kafka ter construído a imagem de Deus à imagem que tinha do seu pai. Ramificamo-nos pelos caminhos mais estranhos e agora entendo por que as viagens, para ele, não foram determinantes: porque havia sempre um fantasma por cima de si que não o deixava sair. Onde é que ele se podia esconder? Dentro. Mas nem aí estava a salvo, se Deus o possuía - se o pai o possuía.
Viajar servia-lhe de pouco para aliviar a tensão.

01/04/15

Quase um ano

Este blog está quase a fazer um ano. Se eu não me visse todos os dias, não acreditaria que era a mesma que começou a postar há um ano atrás.
Não perco a oportunidade de uma comemoração - no dia 16 de Abril, haverá bolo!