16/03/15

As meninas

Porque, para Paula [Rego], a maternidade não era criadora, mas simplesmente reprodutora. O que pode ser mais severo que o pecado? A solidão. A solidão da infância, com o eterno desenhar sentada no chão, proferindo os seus hum-hum de satisfação, de gula, de prazer acompanhante do seu deserto infantil. Não tem irmãos, nunca os terá. O pai merece ser julgado.
O que é o pecado para a criança? Nada, é um simples desenvolvimento do desejo, do que se obtém com o choro e os pés no chão.

Mas será feliz, a menina? A sua integração faz-se com reservas, porque a solidão de que desfrutou e de que faz parte a vida de casa, não a predispôs para as relações com o exterior. Paula é feliz à sua maneira. Resta saber qual é a sua maneira, menos infantil do que se pode supor.

Mas estranha tudo que não corresponde a um habitual efeito na sua vida. O que não é pequeno acontecimento é a metamorfose. Uma menina tem a consciência disso.

Agustina Bessa-Luís e Paula Rego, As Meninas, Guerra e Paz, Abril de 2014.
Escolhi estes excertos a partir das páginas 21, 36, 37, 39, 56, 57, 60 e 61.

Todos eles são análises por Agustina Bessa-Luís das obras que Paula Rego expôs na Edward Totah Gallery em 1987. A exposição chamava-se A Menina e o Cão.

(E o livro é fantástico.)

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