30/03/15

O beijo

A filha imóvel, de nuca vergada para trás, os olhos cerrados, nos braços do pai... Enquanto este, sentado na poltrona, os olhos rasos de lágrimas, longamente, sequiosamente, ardentemente beijava a boca dela, tal como se de um apaixonado se tratasse. Nem a filha falava, nem ele; a cara debruçada sobre ela, sentado, como se estivesse com o seu primeiro amor, ajustou a sua boca à dela e beijou-a.

Kleist (citado por Max Brod num livro sobre Franz Kafka.)

26/03/15

Maternidade

Às vezes tenho vontade de ser mãe para ter uma razão legitima para me queixar e depois dizer que sinto muito amor.

Na rua (estes dias)

Durante uma semana, dediquei-me a registar no meu diário aquilo que me foi dirigido por desconhecidos. Ao final dessa semana, nada me aconteceu.

'Essas pernas são como dois caralhos'
'Fodia-te a boca toda se me mostrasses as mamas'
'És muito feia. Esfregava-te esse cabelo nas minhas partes baixas'
'Com essa cara, só podes gostar de levar'


Do dia (30)

Estou cansada. Hoje o dia teve mil e quatrocentas horas de interior.

22/03/15

Do dia (29)


Hoje, acordei com um pesadelo de que estava a ser beliscada. Fiz uma máquina de roupa, pus lençóis lavados na cama, aspirei o chão e saí de casa. Trabalhei por quatro horas, apesar de pouco intensas. Rasguei as meias. Fiz xixi numa casa de banho muito suja. Demorei duas horas na livraria a escolher um livro e depois, comprei-o. Olhei-me nos vidros das montras, porque o meu cabelo está fantástico. Trabalhei mais um bocado. Almocei sushi depois das cinco, à mesa de trabalho. Li um bocadinho do livro novo, mas o Stirner chamou por mim outra vez e lá fui.

17/03/15

Se os maridos tivessem que lavar a loiça...

Conover Electric Dishwasher, 1931

Emily Blincoe

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Mais da série Arrangements, no seu site, aqui.

Desejos

Quando era miúda, invejava as pessoas que viviam em casas que tinham a placa com o nome da rua agarrada a elas. O meu primeiro namorado tinha uma casa com uma placa que tinha uns azulejos que se partiam aos poucos e a casa da minha avó também tem uma indicação da rua. Do mesmo modo que inspecciono todas as matrículas de carros à procura de uma 22-ZZ-22, antes de entrar na casa de alguém, reparo se tem o nome da rua.

Eu mudei-me há duas semanas e a minha casa faz canto. Ontem, quando cheguei à noite, a minha casa, a partir da rua, chamou-me a atenção, porque tinha deixado o computador ligado e via-se um clarão lá dentro. Depois, olhei para baixo da minha janela e lá estava: precisamente no meu andar, o nome da minha rua.

Mesmo por baixo da janela da sala, a minha casa anunciava o nome de um pintor.

Os Passistas


Amor,
Onde quer que estejamos juntos
Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés
E desvãos do ser.

16/03/15

As meninas

Porque, para Paula [Rego], a maternidade não era criadora, mas simplesmente reprodutora. O que pode ser mais severo que o pecado? A solidão. A solidão da infância, com o eterno desenhar sentada no chão, proferindo os seus hum-hum de satisfação, de gula, de prazer acompanhante do seu deserto infantil. Não tem irmãos, nunca os terá. O pai merece ser julgado.
O que é o pecado para a criança? Nada, é um simples desenvolvimento do desejo, do que se obtém com o choro e os pés no chão.

Mas será feliz, a menina? A sua integração faz-se com reservas, porque a solidão de que desfrutou e de que faz parte a vida de casa, não a predispôs para as relações com o exterior. Paula é feliz à sua maneira. Resta saber qual é a sua maneira, menos infantil do que se pode supor.

Mas estranha tudo que não corresponde a um habitual efeito na sua vida. O que não é pequeno acontecimento é a metamorfose. Uma menina tem a consciência disso.

Agustina Bessa-Luís e Paula Rego, As Meninas, Guerra e Paz, Abril de 2014.
Escolhi estes excertos a partir das páginas 21, 36, 37, 39, 56, 57, 60 e 61.

Todos eles são análises por Agustina Bessa-Luís das obras que Paula Rego expôs na Edward Totah Gallery em 1987. A exposição chamava-se A Menina e o Cão.

(E o livro é fantástico.)

12/03/15

Extática e sagrada loucura

Às vezes estou à mesa: e cômo ou sonho ou estou
somente imóvel entre a aérea
felicidade da noite. O sangue do mundo corre
e brilha. Porque a minha carne se distrai
entre as coisas altas da primavera nocturna.
Ocupo-me nos símbolos, e gostaria
que o meu coração
entontecesse lentamente, que o meu coração
caísse numa espécie de extática e sagrada loucura.

Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1996, p.30
(excerto do Poema, parte III).

(Curiosamente, quando o li pela primeira vez, foi assim: (...) gostaria que o meu coração caísse numa espécie de extática e saudável loucura.)

Afinal ainda desfibrilho!

Estas duas semanas poderiam ter sido a ruína deste blog, que a minha cabeça pouco precisou dele para desfibrilhar por escrito. Mas como estou de volta ao meu poiso, estou de volta à realidade e o tempo de desfibrilhar para dentro terminou.

Vamos lá. :)