11/02/15

Orlando

Orlando encolheu lentamente o pescoço e com o ar semi-consciente de quem está a fazer o que faz todos os dias da sua vida a essa hora, sacou de um caderno e mergulhou na tinta uma velha e manchada pena de ganso.
(...)
Estava a descrever, como todos os poetas jovens sempre descrevem, a natureza, e, para determinar precisamente um tom de verde, olhou para a própria coisa, que era um loureiro por baixo da janela. Depois disso, naturalmente, não pôde mais escrever. Uma coisa é o verde na natureza, outra, na literatura. (...) O tom de verde que Orlando via estragou-lhe a rima, quebrou-lhe o metro.
(...)
Evitou, cuidadosamente, encontrar qualquer pessoa.

Virgínia Woolf, Orlando, trad. Cecília Meireles, obra integral neste link.

Sem comentários: