27/02/15

De ontem

Sonhei com muitas bolinhas e risquinhos.
Dormi directamente no chão da minha casa nova e foi bom.

26/02/15

Dos fantasmas

nº 237 - Parcialmente, a santidade consiste na capacidade de praticar transgressões bem orientadas. Por exemplo: matando em nós os fantasmas tutelares. Sem ternura. É assim que se atinge a múltipla orfandade.

Ana Haterly, deste blog.

25/02/15

Eu - Quando me perguntam se gosto da moda este ano

Dêem-me um livro e uma janelinha para me encostar
e estamos quites. Gostarei do que quiserem.

Ainda sobre a política de nus aqui da Blogger

Já a {anita} e o josé luís, e suponho que outros, se referiram a essa maravilha que será a blogosfera a partir de dia 23 de Março. Pelo que se sabe, não poderemos publicar conteúdos sexualmente explícitos - nus e coisas que tais.
O hmbf também publicou um bom texto, que reproduzo abaixo na íntegra.

'A palavra pornografia aparece 10 vezes neste weblog. O termo sexo surge 62 vezes, com esta 63. Pénis e vagina são pouco usuais por aqui, 5 e 6 referências respectivamente. As versões vernáculas têm outra assiduidade: caralho, 24 menções; cona, 16 alusões. Contra todas as minhas expectativas, escrevi duas vezes picha neste weblog. É palavra que detesto. Tanto quanto o verbo espichar. Já o verbo foder foi por aqui utilizado 23 vezes, na forma substantiva 37 vezes e 18 vezes em modo adjectivo. Os conteúdos sexualmente explícitos não são o forte deste weblog. Ou então as estatísticas enganam, e os conteúdos pornográficos estão onde menos os suspeitamos.'

Quanto a mim, a blogger fez o favor de me enviar um email a dizer que este blog continha posts sexualmente explícitos, pelo que parece que aqui a casa vai perder uma boa parte do seu possível interesse. As minhas meninas vão ter que deixar de ser publicadas.
A boa notícia? Vou apostar numa colecção de meninas novas em fato de banho. Que se pode fazer? Proibiram-me de mostrar as maminhas.

Puritanos, pá.

23/02/15

Sonhos dos últimos dias

Ovos estrelados por baixo da pele.
Bichos presos debaixo das unhas.
Ter um cancro e muitas metástases pelo corpo todo.
Ter sido apanhada na rede.
Querer dormir mais e não conseguir, apesar de estar a dormir.

Infinito

E eu a achar que o significado de infinito era meramente teórico.

22/02/15

Na rua

'Já não te via há anos, Laura! Afinal foste para quê?'
'Filosofia!'
'Credo, a sério? Isso é mesmo curso de quem anda perdido na vida...'

21/02/15

Elegâncias

Deselegante
Zé Legante
Lavagante
Lavagem
Deselegante lavagem, Zé!

Do dia (27)

Hoje, acordei mais cedo do que previa. Não comi até às quatro, porque só consegui pensar no poema em que o Herberto Helder diz 'um nó de sangue na garganta'. Consigo imaginar com muita nitidez um tubo de sangue que desce pela língua abaixo, dá um nó na garganta que escurece e desagua no estômago. Quase fui atropelada; quando o carro apitou e fez uma travagem brusca, eu mantive-me no meio da rua. Ele voltou a apitar, chamou-me puta, apitou outra vez e eu dei um passinho para o lado. Só consigo pensar num 'nó de sangue na garganta, um nó apenas duro'.

20/02/15

Na explicação (das falácias)

' -Dá-me um exemplo de uma ad hominem.'
' -Um homem rico diz que um pobre não pode pensar.'

19/02/15

Dos espelhos (2)

Sou prata e exacta. Não tenho ideias preconcebidas.
Tudo o que vejo aceito sem reservas
Tal como é, inturvado por aversão ou amor.
Não sou cruel, apenas verdadeira -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É cor-de-rosa com manchas. Tenho-a olhado tanto
Que julgo ser parte do meu coração. Mas vacila.
Rostos e trevas separam-nos vezes sem conta.

Sylvia Plath

Dos espelhos

Tarkovsky, Mirror (1975).

(Tenho a cabeça tão cheia de pensar no mesmo assunto todo o dia
que já perdi a prática de pensar noutras coisas.)

As terças

As terças são dias de capoeira e de feira da ladra. Valham-nos os dias que são dias de alguma coisa!

14/02/15

Da percepção

Pela minha parte, quando entro muito intimamente naquilo a que chamo eu mesmo, tropeço sempre numa ou noutra percepção particular, de calor ou de frio, de luz ou de sombra, de amor ou de ódio, de dor ou de prazer. Nunca dou por mim em momento algum sem uma percepção, e nunca consigo observar nada que não seja a percepção.

David Hume, Tratado da Natureza Humana.

Bolachas

Tenho a mesa de cabeceira com pedaços de bolachas de dieta que eu, por vezes, barro com manteiga e chocolate. Ponho sempre tudo na boca ao mesmo tempo e não consigo respirar bem - penso que estou a esconder um segredo e que posso morrer dele.

Do dia (26)

Hoje, não acordei. À noite, estive meia hora à procura de lugar para o carro. Fiquei a ver as putas do Técnico e foi um momento pacífico.

13/02/15

Catar catataus

Agora há murais, pai
na berma do antigo matadouro.
Alguém ainda encontra mirtilos
e espargos na colina
mas nunca mais vi amoreiras de papel
nem comi voo de pássaros
a não ser em sonhos.

A arte da estrada era andar contigo
mas sem ti.

Agora há murais, pai.

Catar Catataus, Paola D'Agostino (excerto)

Mais ninguém, só tu


Eu vejo a luz, o sol,
um sonho bem louco tornou-se real.

(eu adorava esta cena.)

Eu - Na maior parte do tempo

E 'tampoco' uso cuequinhas.

Nós - Quando nos amamos

Isto não é como vocês pensam
há-que ter conta, peso e medida
nas carícias.
Bem.

12/02/15

Eu - Quando... Olha, sei lá! Chatos.

Precisam de uma boa dose de cicuta
pela garganta abaixo.

De se esconder

Dá deus nozes a quem não se esconde.
Deus escreve direito por quem se esconde.
Deus quer, o homem esconde-se, a obra nasce.
Esconder de César o que é de César.

Dá deus nozes por quem não se esconde.
Deus quer o que é de César.

De espiar

Gato espiado, de água fria tem medo.
Quem bem espia, seus males espanta.
Mais homens se afogam num corpo espiado do que no mar.
Mais vale espiar que remediar.
Muito falar, pouco espiar.

Gato espiado num corpo espiado.
Muito falar, espiar que remediar.

11/02/15

Apostar tudo e perder

Stirner jogou tudo neste livro e perdeu. Como se o livro fosse demasiado forte, mesmo para quem o escreveu, e apesar de Stirner ter acompanhado a sua entrada no mundo. Trata-se de um livro extremo; mal se abre e mal se começa ler, uma voz argumenta, seduz, insulta, combate e provoca. Ao voltar a última página, segue-se um estarrecimento. Durável.

Bragança de Miranda, posfácio d' O Único e a Sua Propriedade, p. 300.

Orlando

Orlando encolheu lentamente o pescoço e com o ar semi-consciente de quem está a fazer o que faz todos os dias da sua vida a essa hora, sacou de um caderno e mergulhou na tinta uma velha e manchada pena de ganso.
(...)
Estava a descrever, como todos os poetas jovens sempre descrevem, a natureza, e, para determinar precisamente um tom de verde, olhou para a própria coisa, que era um loureiro por baixo da janela. Depois disso, naturalmente, não pôde mais escrever. Uma coisa é o verde na natureza, outra, na literatura. (...) O tom de verde que Orlando via estragou-lhe a rima, quebrou-lhe o metro.
(...)
Evitou, cuidadosamente, encontrar qualquer pessoa.

Virgínia Woolf, Orlando, trad. Cecília Meireles, obra integral neste link.

10/02/15

Na leitura

-Tenho fome de viver.
-Vives pouco?
-Nunca vivo o suficiente.

Fica

Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.


Judith Herzberg, O que resta do dia, tradução de Ana Maria Carvalho, Lisboa: Cavalo de Ferro, 1ª edição, 2008, p. 153.

Do dia (25)

Hoje, acordei e voltei para a cama. Atrasei-me 20 minutos, tirei medidas, atrasei a vida do senhor, senti o cabelo sujo e colado, regressei à chuva, escrevi até à hora do almoço, fui arrogante, arrependi-me, almocei caril. Li poemas. Contei os quadrados da mesa: 529, verdes e brancos. Lembrei-me da minha professora de matemática que dizia que se eu tirasse letras, ia ser taxista. E do meu professor de filosofia, que dizia para tirar medicina para garantir o futuro, e outro curso depois, nas horas vagas, para pensar enquanto esperasse pelos doentes. Ainda faltam horas para ir dormir. Preciso de xarope para a tosse.

Cafés no Inverno

O quente da chávena de café , senti-o como flores a desabrocharem nas minhas mãos frias.

Ideias para ser feliz

Acabo de receber este email da wook.
Nem sei por onde começar...

09/02/15

No café

'Nesta foto, pareces mais nova. E nesta pareces arquitectural.'
'Como uma arquitecta?'
'Não, bem constituída. Com um bom rabo.'

Absolutely Sweet Marie


But to live outside the law
you must be honest.


Envelhecer em Konigsberg

Eu considero este texto muito lúcido.

Do dia (24)

Hoje, tive muito frio durante a noite. Sonhei com a Virgínia Woolf. A culpa é do diário. Comi uma banana. Voltei para a cama. Adormeci, para acordar com o despertador no outro quarto. Tomei banho, outra banana, muita luz na rua e um café. Vi um calendário com os domingos a vermelho e lembrei-me que aquilo que se teme por vezes se torna uma força interior que se adora, que nos domina e que nos submete. E, às vezes, está tão dentro, que já nem pensamos em libertar-nos. Tenho que escrever um email difícil.

Sobre Virgínia Woolf

Virgínia tinha decidido ser escritora, tal como Vanessa [a sua irmã] resolvera ser pintora, no quarto de brinquedos. Virgínia passou grande parte da infância - e parece que a sua infância foi tranquila e muito feliz - a escrever para seu prazer e divertimento.

Introdução ao Diário, 1910-1914, de Virgínia Woolf, p.15.

06/02/15

Do colégio

Descobri que o colégio onde andei até ao quinto ano tem uma página na internet. Fui lá ver a missão, segundo eles, ontológica:

'Saber Ser- Tomar consciência da sua dignidade de pessoa, e da pessoa única que é, feita à imagem e semelhança de Deus, consciente de que os dons que possui lhe foram dados para um mais qualificado serviço à Humanidade e Glória de Deus.'

Vou só ali fazer uma chamadinha à minha mãe.

Supercalifragisticexpiralidouxious!


Eratostenes


Descobri o que quero ser: académica, bibliotecária, poeta e inventora. Tal como Eratostenes

Então não é que o tipo, mais de 200 anos aC (oh, a culpa por estar a escrever este C maiúsculo, flap, flap, as cordas da auto flagelação por me subjugar a normas culturais), desenhou este mapa do mundo, dividiu-o em cinco zonas climáticas e calculou o diâmetro da Terra?

Referências actualmente: o seu nome é o nome de uma cratera lunar. 

Bonito, bonito...
(e agora a música está na cabeça. Toda eu um poço de referências. Flap, flap.)

Meia Lua Inteira


Sumiu na mata dentro
foi pego sem documento

rá rá rá ráááá

No café

Aproxima-se uma senhora: 
- Menina, tu linda, tu muito bonita! Eu Roménia, eu seis filhos, eu dinheiro não...
- Não, não, desculpe... 
- Vai para o caralho, puta feia. 

04/02/15

Das danças


As lágrimas amargas de Petra von Kant,
Fassbinder. 

Na fila para o multibanco

(Senhor ao telefone)
'- Vozes de burro não chegam ao céu, a tua mãe não é a autoridade máxima!'
(resposta do outro lado)
'- Eu sei. Por isso é que te estou a dizer o que li no horóscopo: a tua mãe não é a autoridade máxima!'

(Se o horóscopo diz, já tenho argumentos para me emancipar. Mãe, a partir de agora, já sabes, isto vai piar fininho.)

O homem-fantasma


Sou um justiceiro
e imortal
Sou o homem-fantasma e estou em toda a parte

Nunca descansa o homem-fantasma
E a gente espanta se a gente pasma
Quando respira fundo o homem-fantasma
Nunca é de alívio,
Quanto muito será da asma.

(não consigo parar de ouvir este refrão!)

03/02/15

Eu - Quando me dizem que gostam de puésía

Pergunto-me se também dizem
dar um parabém. Assim:
'No outro dia, dei-lhe o meu parabém
lendo-lhe uma puésía.'

Da negação


R.W.K. Paterson, The Nihilistic Egoist Max Stirner, p. 9.

Os partidos

Os eus próprios, ou os únicos, constituirão por acaso um partido? Mas, como poderiam eles ser eus próprios se fossem membros de um partido?

Mas Stirner, O Único e a sua Propriedade, p.187.

O baú de Sigmund Freud


Mas que trabalho que canseira
nos salões do inconsciente
há baús de tantas cores
tanto pó por sobre as dores
tanto dos nossos insides
que nos sai desnaturado

02/02/15

História

Via Sr. Teste.

Das combinações prévias

Eu e o meu pai havíamos combinado que estabeleceríamos um sinal em vida para comprovarmos se ela existia depois da morte. O sinal que combinámos foi este: se eu sentisse que alguém gostava de mim com todo o amor, ia saber que não era essa pessoa que gostava de mim, mas ele através dessa pessoa.
Não fui eu que tive a ideia, mas concordei com ela. Nunca poderia antever a sombra permanente que esse acordo me causaria. A subtileza do controle é lixada. 

Do dia (23)

Hoje, acordei com angústia infinita. A minha avó faz mais de 85 anos e já não sabe quantos faz. A minha avó é que me ensinou em que dia eu fazia anos e ligou-me todos os anos à meia-noite. Hoje, ainda não lhe liguei e já passa das três. Enviei cinco emails, um deles bastante longo. Marquei um encontro com o meu orientador. O meu relógio parou. Escrevi cinco páginas de diário e todas me parecem absurdas. Tentei encontrar um poema da Adília Lopes em que fala sobre um homem tocar numa menina de quatro anos no Jardim Botânico. Não encontrei. Disseram que gostavam muito de mim.

Dos anos

Uma forma de transformação mais impressionante que qualquer outra é a que sofreram as estátuas naufragadas. Os navios que transportavam a encomenda executada por um escultor, as galeras onde os conquistadores romanos empilhavam os despojos gregos, de regresso a Roma, ou, quando Roma se tornou pouco segura, os levavam com eles para Constantinopla, afundaram-se muitas vezes; 

Alguns desses bronzes naufragados, repescados em boas condições, como afogados salvos a tempo, conservam da sua permanência no fundo do mar uma admirável cobertura esverdeada, como o Efebo de Maratona ou os dois atletas de Erice, mais recentemente encontrados. 

Frágeis mármores, pelo contrário, saíram roídos, comidos, ornados de volutas barrocas esculpidas pelo capricho das ondas, incrustados de conchas como as caixas que se compravam na praia quando nós éramos pequenos. A forma e o gesto que lhes impusera o escultor não foram mais que um breve episódio entre a sua incalculável duração como rocha que eram no seio da montanha e a sua longa existência de pedra jazendo no fundo do mar.

O Neptuno, boa cópia de oficina, destinada a ornamentar o cais de uma pequena terra de pescadores onde lhe seriam oferecidas as primícias da pesca, desceu ao reino de Neptuno. A Vénus celeste e dos caminhos diversos tornou-se a Afrodite dos mares.

Marguerite Yourcenar, O Tempo, esse grande escultor.

(Três anos é muito tempo.)