27/01/15

Dá-me lume

Declaração de interesses: não sou grande fã do Jorge Palma, mas esta música está na minha cabeça e só me apetece dançar.


Este Não-Futuro que a gente vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. 

Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. 

O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Al Berto, Entrevista à revista Ler (1989)

Diário de Guerra (1914-1918)

Depois, fumo com Priepke o meu cigarro e cremos ver um francês, atrás de nós, no campo. Disparo primeiro com o regulador de tiro a 1200, depois a 1600, e Priepke com outro diferente. Temos que suspender o fogo imediatamente.

Tenho muita curiosidade em ver como é uma explosão de sharpnels. Em geral, a guerra parecia-me mais horrível do que é na realidade. O espectáculo daqueles destruídos pelas granadas deixou-me completamente frio, tal como este pim pam pum.

O mais desagradável para mim são o frio e a humidade nos nossos olhos.

Ernst Junger, Diário de Guerra (1914-1918), em Espanhol aqui.

26/01/15

Eu - Em arrumações


Sou minimalista nessas coisas.
Faço pouco.

A felicidade da humanidade

John Mackay foi o principal responsável pelo 'primeiro' reaparecimento de Stirner. Poeta anarca, escreveu uma introdução e reeditou o Único e a sua Propriedade, entre outros pequenos escritos dispersos.
Quando, um dia, um jornalista lhe perguntou, em tom jocoso, se alguma vez tinha contribuído para a felicidade da humanidade, ele respondeu:
- Sim! Tenho sido muito feliz!

24/01/15

Do dia (22)

Hoje, acordei às cinco da manhã. Há uns dias que sou assaltada pelo mesmo pensamento durante horas seguidas: imagino uma piscina cheia de lágrimas. Não penso na possibilidade real dela, mas nela própria. Imagino a dor de uma pessoa que é obrigada a nadar nessa piscina, e imagino-me a ser obrigada a nadar nessa piscina. Imagino-me a beber as lágrimas para elas não estarem sozinhas e para aliviar a obrigação, pôr as mãos em concha e sorvê-las. Estou absolutamente presa a esta ideia, que esta noite não me deixou dormir.

23/01/15

Eu - Quando estou a descansar

Estou com falta de
assento para os pezinhos. 

Eu - Quando me perguntam se sou filha da Elsa e de um Smurf


(Pronto, foi uma criança.)
Mas agora já posso fazer parte do vosso imaginário,
meninos que gostam de bonecas.

White winter hymnal


I was following the pack,
All swaddled in their coats
With scarves of red tied 'round their throats
To keep their little heads
From fallin' in the snow
And I turned 'round and there you go.

Se não fosse a Sofia a apresentar-mos...

A presença de um terceiro

Com o tempo vamo-nos dando conta de que temos um interesse estranho por um autor. Dostoievski, Balzac, depois Shakespeare ou Kleist, entram na nossa vida e acompanham-nos nas nossas deambulações. Estamos a falar com alguém à nossa frente, vamos respondendo, mas subentendidamente está presente um terceiro, invisível, mas que nos atrai para fora da conversa, de todas as conversas.

J.A. Bragança de Miranda, daqui.

Am I?


A senhora sempre presente (1)

Às 10h, fui tomar café a um quiosque em frente a minha casa. Como tem net, por lá fiquei a trabalhar.
Aproxima-se uma muleta.
Era a senhora sempre presente.

Com a sua cara feroz, ordena: um café! e senta-se com dificuldade exagerada.
Vem o café, a tremelicar de medo.
De muleta no ar (juro. De muleta no ar!) diz: olha, menina, era cheio, não me ouviu?

E bufa enquanto lê As Viagens na Minha Terra.

A senhora sempre presente alegra as minhas manhãs de trabalho. E agora está aqui ao meu lado a falar pouco educadamente com o namorado.

(E eu a pensar que estas mini crónicas não iam ser muito frequentes...)

22/01/15

Do dia (21)

Ontem, toparam duas vezes que eu tinha mimo a transbordar. Então eu fiz beicinho e disse que nunca mais ia ter mimo. Fiz uma birrinha interior. E hoje, relatei a história e recebi um abracinho. Decidi outra vez que nunca mais ia ter mimo. Promessa tão verdadeira como decidir fazer-se dieta depois de um banquete.

No café

' - E depois, vi que ele tinha outra!'
' - Como?!'
' - Sabes que há uma coisa que se chama Facebook. E às vezes, sem querer, temos tendência a ir espiolhá-los...'

Incontinência, suponho.

Eu - Quando me preparo para trabalhar


20/01/15

Quando o inimigo adquire um rosto (torna-se impossível matá-lo)

Ofensiva de 21 de Março de 1918

Eu avançava, furiosamente, pelo solo negro arado pelas balas, onde ainda se encontrava o fumo dos gases asfixiantes dos nossos inimigos. Foi então que me deparei com o primeiro inimigo. Um vulto de uniforme castanho estava de cócoras a vinte passos à minha frente, arrastando-se pela fuzilaria, intermitente, com as mãos apoiadas no chão.

Apercebemo-nos quando me virei de repente. Eu vi-o assustar-se; manteve os olhos fixos em mim, enquanto eu me aproximava de arma apontada. Ele devia ter comandado essa secção da trincheira, porque vi condecorações e insígnias hierárquicas na túnica pela qual o agarrei.

Com um gemido, levou a sua mão ao bolso para tirar, não uma arma, mas uma fotografia. Era ele, num terraço, ao lado da sua família. Depois, contente por ele me ter dominado, eu segui adiante.

Exactamente esse adversário me aparece com frequência em sonhos. Isso faz-me ter esperança de que os que me seguiam também o tenham poupado.

Ernst Junger, Orages d'acier.

19/01/15

Eu - Quando tenho coisas para fazer, mas não as faço

Acho que preciso de público
para me levar a fazer aquilo que tem que ser feito.

A senhora sempre presente

Há uma senhora que, como eu, corre as bibliotecas de Lisboa. Já a vi na improvável e escondida biblioteca dos Coruchéus, já a vi na Gulbenkian e já a vi na Faculdade de Letras. Nunca me cruzo com ela em mais lado nenhum.

A senhora tem várias particularidades. Uma delas é estar sempre acompanhada de uma muleta. Que só usa de vez em quando, quando há muita gente à volta. Outra é gritar com o namorado/cuidador, sobre quem também gostaria de escrever. Outra é fazer uma pesquisa interminável sobre um assunto que ainda não entendi qual é.

Achei que devia abrir uma secção especial para ela neste blog. Algumas das conversas que aqui relatei foram com ela. Merece que lhe dedique atenção. 
Sintam-se bem recebidos na Senhora Sempre Presente.

Wilderness of Mirrors



Há qualquer coisa nesta música
que me deixa absolutamente concentrada.

18/01/15

Franz Kafka

26 de Setembro

As dores leves em redor do coração. O cansaço que desapareceu a meio da noite. A trémula entrada no quarto das minhas irmãs. A leitura em voz alta. Antes disso, espreguiçar em frente da criada e dizer: «Estive a escrever até agora.» O aspecto da cama intacta, como se tivesse acabado de ser posta ali. A convicção confirmada de que com o escrever este romance me encontro nas planuras vergonhosas da escrita. Só desta maneira é que se pode escrever, só com uma coerência destas, com esta abertura total do corpo e da alma.

(Sobre a noite em que escreveu O Processo.)

Kafka, Diários.

Carta ao Pai (15)

Se, enquanto espírito, repudiava o mundo com profundo desprezo por ele, enquanto eu-proprietário rejeito os espíritos ou as ideias e a sua vanidade. Elas deixaram de ter poder sobre mim.

Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 19.

Eu - Quando vou cortar o cabelo


15/01/15

Do dia (20)

Acordei às horas que queria. Demorei-me, como todas as manhãs, na cama. Dormi em lençóis brancos. Vi jóias antigas. Tomei banho. Bebi sumo com mel. Li Brecht. Li Stirner. Li Brecht muito tempo. Choveu muito e eu usei o guarda-chuva. O vento levantou-me o vestido. Um senhor viu-me as cuequinhas e fingiu que não as viu. Outro senhor viu-me as cuequinhas e lambeu o ar como quem lambe um gelado. Eu fingi que não vi. Almocei tarde, trabalhei mal, interrompi-me com desculpas. Prometeram-me chili antes de dormir. Fui ler o diário da Virgínia Woolf. Tive saudades do meu pai.

Virgínia Woolf

Quarta, 15 de Agosto

O Quentin comeu tanto ao lanche que ficou mal-disposto.

Diário, 1915-1926.

Dificuldade de govenar

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. 
Se o operário soubesse usar a sua máquina 
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem proprietários. 
É só porque toda a gente é tão estupida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 

Bertolt Brecht

13/01/15

Por ti minha alma soffre


Via Adriana Bebiano. 

Antz, a formiga Z


Deve haver alguma coisa melhor lá fora.
O meu trabalho... eu não fui feito para ser um operário. 
Eu sinto-me fisicamente desadequado. 
E este negócio de super organismo eficiente? Eu tentei, mas eu não consigo engolir!
E os meus desejos? E eu?

Todo este sistema faz-me sentir insignificante.

Ensaios


Cálice


De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta.

Mais sobre a história da música aqui.

Ingenuidade reganhada

A própria verdade não consiste em nada de outro senão no revelar de si próprio, e a isso pertence o achar de si próprio, a libertação relativamente a todo o estranho, a abstracção mais extrema ou a isenção relativamente a toda a autoridade, a ingenuidade reganhada.

Max Stirner

12/01/15

Quizas, quizas, quizas


Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo que más tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?

11/01/15

Na explicação (3)

- O que são cipriotas?
- Pessoas do Chipre.
-Ah! Do Cyprus!

A primeira urina da manhã

decapitavam-se as coisas e não fazia mal
as coisas decapitadas vivem por elas próprias
não têm cornos que lhes doam

saía-se da cama com uma perna a menos
ou um braço
ou um pai a menos
e mais vale um pai num prédio só de tijolo
do que dois a voar

mas os meus pais voaram todos

Cláudia R. Sampaio, A Primeira Urina da Manhã
Douda Correria #14
Janeiro 2015

10/01/15

Ao telefone com a minha avó

- Pois, avó, acho que não quero ter filhos...
- Ainda bem, filha!

(Qualquer coisa não me soou bem na resposta.)

08/01/15

Na explicação (2)

Eu - A tua professora teve um acidente, não foi?
Ela - Sim, veio um carro em contramão.
Eu - Coitada...

(silêncio.)

Ela - Sabes o que foi pior?
Eu - Não...
Ela - A professora diz que o air bag cheira mal.

Na explicação

(Eu a passar-me por estar a explicar o que é uma negação de uma negação há demasiado tempo.)

'Oh miúda! Presta atenção!! Já te vi aprender coisas mais difíceis!'

(Silêncio. Ar preocupado.)

'Ih, Laura... Achas que estou a ficar burrinha?'


Apostrophes, Marguerite Yourcenar








05/01/15

Resoluções de ano novo: cerveja para toda a família


Resoluções de ano novo: adquirir um novo equipamento de projecção


Resoluções de ano novo: ser melhor que a Mona Lisa

Bem, julgue por si próprio - as imagens falam por si!
Compare o retrato por Da Vinci, tal como ela era, com a nossa versão
de como ela PODERIA ter sido se pudesse ter usado os nossos
produtos Maybelline...

Veja se não concorda connosco: o charme dessa linda senhora poderia ter
sido melhorado com a maquilhagem ideal para os olhos.
Você também pode melhorar!

Resoluções de ano novo: ser linda e não ser parva


Resoluções de ano novo: acabar com a depressão


Se está nervoso, deprimido, esta bebida revitalizante
dar-lhe-á uma nova alegria de viver.
Phosferine Tonic Wine anima-o quando está em baixo.

Resoluções de ano novo: hip shaper

Pareço triste,
mas é só a dor das minhas ancas
a encolherem.

Resoluções de ano novo: deixar de ir à depilação

Sim, agora é possível ter aquele peito peludo e o aspecto
de He-man que sempre desejou. Quantas vezes não invejou
o tipo com ar macho? Deixe de sonhar e aja!

A quantidade de pêlos pode variar, dependendo das características
físicas dos indivíduos e dos seus objectivos.

Não espere!

Resoluções de ano novo: comprar uma multifunções

Uma cozinha completa em 5m^2!
Combina frigorífico, lavatório, três bocas e
uma gaveta para arrumações.

Resoluções de ano novo: horse exercise

Cura para a obesidade,
histeria
e gota. 

04/01/15

Sobre (não) escrever (das últimas três semanas)

Acho que já não sei escrever.
Digo isto com toda a sinceridade, acho que não sei articular palavras. Já achei que escrevia bem, já achei que dava o toquezinho final aos textos de uma forma mesmo boa, já achei que lia bons livros e que isso me fazia de mim alguém que escrevia. Agora, sempre que abro uma nova página, o cursor fica intermitente e parece que já não existe linguagem. Vou escrever e não consigo. Como hei-de explicar? Não consigo. A pessoa sabe que aguenta um bocadinho debaixo de água sem respirar; eu estou debaixo de água há muitos dias. Há quase três semanas.

Hoje, li parte de um calhamaço. Voltei a abrir o computador para escrever e a única coisa que saiu da ponta dos meus dedos foi angústia, tal como está angustiado este texto. Já me disseram que isto desbloqueava, mas não desbloqueia. Pensei que fosse de estar a estudar pouco, mas não. Pensei que ir ao ginásio resolvia, ir namorar resolvia, ler outras coisas, ver um filme, jogar xadrez - pensei que fazer qualquer coisa que não fosse escrever me ajudasse a escrever.

O meu nó no estômago cresce a olhos vistos.
E se me perguntarem como é que vai a minha tese, eu sou capaz de dizer que estou numa relação de dependência, como se o meu marido me batesse todos os dias e eu não conseguisse deixar de lhe servir o jantar com um sorriso nos lábios.

03/01/15

Mrs. Robinson



Jesus loves you more than you would know.

Do dia (19)

Hoje, acordei no morninho. Deixei-me ficar na cama. Bebi sumo de laranja e croissant ao almoço. Lanchei qualquer coisa com chá que sabia a biscoito. Joguei xadrez duas vezes. Gostei de ganhar, mas não fiquei efusiva. Fiz arroz. Ensinei que a água fervia a 100ºC e que lá fora estavam menos de 10. Gostei mais que tivessem gostado do arroz do que de ter ganho xadrez. Ensopei maçã cozida no xarope doce. Dei uma garfada à boca. Ouvi uma mãe descansar o filho sobre como o amava, da mesma forma que a minha mãe me descansava a mim. Lembrei-me que não percebi na altura. Lembrei-me de como chorava um bocadinho só porque gostava da expressão 'chorar na almofada', mas de não querer chorar de verdade. E lembrei-me que quando a minha mãe dizia que havia diferentes tipos de amor, eu pensava num armário com caixinhas, as quais tinha dificuldade em abrir por não saber da chave. Ainda não adormeci.

Tomar decisões

O mal fundamental é que a influência moral é o principal ingrediente da nossa educação. E essa influência moral começa onde principia a humilhação; não é mesmo outra coisa senão essa humilhação, que quebra e faz vergar a coragem, reduzindo-a à humildade.

O mal existe na medida em que a nossa educação está orientada no sentido de produzir em nós sentimentos, ou seja, de nos impor, em vez de nos deixar tomar iniciativa de os produzir, sejam eles quais forem.

Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade.

Eu - Quando não fazem o que eu mando

Tinha saudades vossas,
suas safadezas marotas!

01/01/15

Mrs. Dalloway

Mas, muitas vezes, aquele corpo que habitava, aquele corpo, com toda a sua consciência, não parecia nada - absolutamente nada. Tinha a esquisita sensação de estar invisível; despercebida; desconhecida; de não ser casada, não ter filhos, mas apenas, naquela espantosa é um tanto solene marcha com os demais, por Bond Street, ser esta Mrs. Dalloway; nem mesmo Clarisse; Mrs. Dalloway, somente.

Virgínia Woolf

(Novos anos, sentimentos antigos.)