28/11/14

Do dia (17)

Hoje, não acordei totalmente. Dormi mal, comi pouco, não fiz exercício. Li Stirner. Fiz um teste de francês. A minha composição foi, obrigatoriamente, como me via daqui a 20 anos. Disse que me via como uma princesa num castelo. Li Stirner. A minha melhor amiga defendeu a sua tese de mestrado e eu chorei quando soube que tinha sido fabulosa. Fiz o post mais verdadeiro desde que comecei este blog. Li Stirner. Bebi coca-cola. Vi a via láctea pintada e o sol também. Tirei uma fotografia a um menino que ganhou um concurso de escrita. Ouvi um homem dizer que me punha a piça no cu. Pensei escrever um texto revoltado no facebook. Mas, em vez disso, li Stirner.

O amor (pode tomar formas estranhas)



Balthus, 1938

Nem uma letra da lei se perderá*

Diz-se que a 'natureza da coisa' e o 'conceito de relação' é que me devem guiar no tratamento da coisa e na instituição da relação. Como se existisse, em si, um conceito da coisa, e não o conceito que fazemos da coisa! Como se uma relação em que entramos não devesse a sua especificidade apenas à daqueles que nela entram! Como se tudo dependesse do modo como outros a classificam! (...)

O que deve ser determinante em tudo, diz-se, são os conceitos; são eles que regulamentam a vida, são eles que dominam. (...) Tudo se torna uma ladainha de conceitos, e o homem concreto, eu, é obrigado a viver segundo essas leis conceptuais.

Poderá haver mais dura tirania da lei?

*Mateus 5, 17-18

Stirner, O Único e a Sua Propriedade, p. 81

(Este livro é uma maravilha. Uma verdadeira maravilha.)

27/11/14

Das correntes

Escuta a corrente
que te diz uma coisa.

Morre nesta margem.
Nasce em mim
como os rios no mar.

Jalaluddin Rumi (1207-1273)

26/11/14

Relações Escaldantes


Nem soutiens. 

No Francês

Professora: Laura, tu as un très bon vocabulaire!
Eu: Gracias! I mean, thank you! Ahm, je ne me souviens pas... obrrigádá?
Professora: ... On va continuer la clase.

No autocarro

'Eu falo muito. Gosto de falar! Não sou um bicho. Falo pelo marido e pela filha, digo muitas coisas, ai não gosto nada de ficar calada, falar é que é bom, expressar o que se sente, não falo dos outros, falo de mim, não é bom falar de mim, adeus Marcelina, que nasça bem o bebé, perfeitinho. Onde é que eu ia? Ah, a dizer que gosto de falar.' 

(Ajudem-me.)

John F. Kennedy


25/11/14

Eu - Quando trabalho como deve ser


Kimono Fibonacci


Este padrão, como a maioria dos padrões de kimono, era criado a partir de um molde feito em madeira de amoreira.
A ideia era reflectir a sequência de Fibonacci presente na natureza, num kimono.
Trata-se de uma peça muito rara, datada entre 1880-1890.

Stirner (3)

Por isso todos se sentem nas suas sete quintas quando zelosamente lhes são prestadas honras. Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e miséria. E acham que o povo quer saber disso? O 'povo' floresce com o estrume dos seus cadáveres! Os indivíduos morreram 'pela grande causa do povo', o povo despede-se deles com umas palavras de agradecimento e... tira daí proveito.

É o que se chama um povo rentável.

Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, trad. João Barrento, Março 2014, Antígona, p. 10

23/11/14

Comunicações


Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Dos nós

que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma inda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,

um nó de sangue da garganta,
um nó apenas duro.

Herberto Helder, A morte sem mestre, Porto Editora, Maio 2014, p. 9 e 10.

22/11/14

Do dia (16)

Hoje, tamborilei os dedos por cima da sua saia. Pude sentir tecido de rede, mas não era ali mesmo. Por baixo da sua pele, as suas veias em rede; depois a pele, células em rede, depois as meias de rede, o tecido da saia tecido em rede, a minha mão a tamborilar e os meus dedos com pele com células em rede e depois a minha pele; e dentro da minha pele, as minhas próprias veias em rede. 
Pensei que deve ser triste morrer: uma exposição gradual das redes sem ninguém para tamborilar nelas. 

Eu - Quando visto camisolas de lã


Por isso é que me prefiro
nuinha.

21/11/14

Foucault e Sartre


Walden





Ser Solidário


Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece

Stirner (2)


Há tanta coisa a queter ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. 

A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo!

 

Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade, Antígona, p. 9

Esperar pelo futuro

Estou à espera de um dia há mais de um ano, conscientemente. Inconscientemente, há mais tempo. Esse dia é para a semana. Tenho um compromisso inadiável à mesma hora, desse mesmo dia.

(E digo isto no blog, como se a frustração partilhada fosse mais leve. Vou deixar de ansiar pelo futuro.)

20/11/14

Stirner

Morre com 29 anos e 8 meses, vitima de uma picada de uma mosca salvadora. E no registo civil anotava-se: nem mãe, nem mulher, nem filhos. Stirner, um morto vivo depois de 1845? Ou mais um suicida da sociedade que, desesperado pela vontade de viver, foi empurrado para a pior espécie de desespero, a esperança? 

Max Stirner, Textos Dispersos, Via Editora. P. 15 (da Apresentação de Max Stirner, J. Bragança de Miranda). 

16/11/14

Sou um intelectual de esquerda


João César Monteiro
Recordações da Casa Amarela

Alice Cooper e Dali


Do dia (15)

Hoje acordei sobressaltada de um pesadelo com exercício físico. Deixei-me estar a ler antes das obrigações dominicais. Preparei apontamentos sobre argumentos dedutivos e indutivos. Liguei o computador. Do outro lado, a menina do costume, mais atormentada que o normal, que o teste é já dia dois, mas eu acho que estou melhor, achas que estou melhor, Laura, tenho medo, é melhor marcarmos já para a semana, e marcámos dias e horas e resumos e apontamentos para as três semanas seguintes. Vamos começar, vamos. Apareceu a mãe em grande plano. Sabes o que me disse a professora de Filosofia sobre ela, que não sabe distinguir o imaginário do real. A mãe disse-mo com um ar sério, como se fosse qualquer coisa de grave.
Eu não pude deixar de pensar que esse é o melhor elogio que alguém pode receber.


Carta ao pai (13)

Imortal na sua inutilidade, o sofrimento havia de existir sempre. Em todas as outras coisas, uma pessoa é grotesca e desprezivelmente finita. Mas, quanto ao sofrimento, já assim não é. Esse coagulozito concentrado e sombrio a que uma pessoa chama o seu 'eu' é susceptível de sofrimento até ao infinito e, apesar da morte, o sofrimento continua eternamente.

Os sofrimentos dos vivos e os sofrimentos dos agonizantes; a rotina de agonias sucessivas na secção de saldos do grande armazém e a crucificação final,  um inferno de vulgaridade feito de lata e de plástico. O facto de uma pessoa ter a consciência de que existe equivale ao facto de ter a consciência de que se encontra sempre só. Tão só (...) como no cancro final, quando uma pessoa supõe que tudo chegou ao fim; só até na imortalidade e no sofrimento.

(Uma pessoa regressa ao passado com tanta facilidade! Com demasiada facilidade. E também demasiadas vezes. - soltou um suspiro profundo e endireitou os ombros.)

Aldous Huxley, A ilha, Antígona, Junho de 2014, pp. 441 e 449.

15/11/14

No cabeleireiro

Estou a ler. 

- A menina gosta de ler? 
- Hum hum...
- Eu também! Quantos livros já leu? 
- Não sei bem...
- A minha neta ofereceu-me no outro dia o meu décimo. 
- E está a gostar? 
- Mais ou menos. Leio página sim, página não. 

14/11/14

Moi - Quand il pleut


Transformo-me na Mary Poppins
(e aprendo a meteorologia em francês. Estou a preparar-me
para o dilúvio.) 

13/11/14

The Passion of Anna







Sobre a nacionalidade

Um dia virá em que a nacionalidade cessará de ser exclusiva; em que será permitido a qualquer indivíduo, viajando para seu prazer ou tratar dos seus assuntos, ser cidadão de várias pátrias. 

Proudhon, La fédération et l'unité en Italie, 1959.

12/11/14

As certezas do meu mais brilhante amor


Assobiando as melodias mais brilhantes
Como o brilhante da certeza de um amor
Como o rubi mais precioso entre os restantes
Que é o da meiguice alternando com ardor

Não negarei ficar assim nesta beleza
Assobiando as melodias mais fugazes
Não é possível nem é simples, com certeza
Mas é vontade que me dá do que me fazes

11/11/14

Eu - Em pânico


Já passou o Halloween
mas continuo em pânico. 
Preciso de uma aguardente.

A morte embate contra si própria

Recordo-me de um jovem - de um homem ainda jovem - impedido de morrer pela própria morte - e talvez por erro da injustiça. (...) Sei - sabê-lo-ei - que aquele que os alemães já tinham na mão, não esperando senão a ordem final, experimentou um sentimento de extraordinária leveza, uma espécie de beatitude (nada, porém, que se parecesse com felicidade) - alegria soberana? O encontro da morte e de morte?

De repente, ele era talvez invencível. Morto - imortal. Talvez o êxtase. Ou antes o sentimento de compaixão pela humanidade sofredora, a felicidade de não ser imortal nem eterno. Doravante, ficou ligado à morte, por uma amizade sub-reptícia.

Mas eis que um deles se aproximou (...) e fez-lhe sinal para desaparecer. Creio que ele se afastou, sempre com o mesmo sentimento de leveza, até que se encontrou num bosque afastado, chamado 'Bois de bruyères'. É no bosque denso que, de repente, e sabe-se lá depois de quanto tempo, ele reencontrou o sentido do real.

Começou sem dúvida então o tormento da injustiça para o jovem. Fim do êxtase; o sentimento de que só estava vivo porque, mesmo aos olhos dos Russos, pertencia a uma classe nobre.

Permanecia, todavia, como no momento em que o fuzilamento estava eminente, o sentimento de leveza que não conseguirei traduzir: liberto da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade. Sei, imagino que este sentimento inanalisável mudou o que lhe restava de existência. Como se a morte fora dele não pudesse doravante senão embater contra a morte nele. 'Estou vivo. Não, estás morto.'

Maurice Blanchot, O instante da minha morte, trad. Fernanda Bernardo, Campo das Letras, p. 8-21.

No café

Estou sentada a escrever no computador, quando se aproxima de mim um miúdo com Síndrome de Down.

- Olá, o que é que estás a fazer?
- Estou a escrever um trabalho.
- Para quê?
- Para a escola, é de filosofia.
- Na minha escola não há disso.
- Quando fores maior, vais ter...
- É difícil?
- Não, ajuda-te a pensar melhor.
- Então porque é que não tenho isso já? Não querem que pense bem?

10/11/14

Nº8


Que beleza.

Eu - Quando não sei o que fazer aos livros acumulados


É um vê se te avias.
Neste momento, estou a precisar do dobro das estantes
ou então de mais espaço debaixo da cama.

(mas tenho ali um novo da Duras que me está a impedir de fazer outra coisa
que não lê-lo.) 

09/11/14

Orlando



What's that?
The future!

Oração da mãe menininha


Afinal já tinha ouvido falar de orixás
mas não me lembrava que
era daqui.

Virginia Woolf

Domingo, 14 de Fevereiro

Hoje está outra vez a chover. Limpei as pratas, o que é uma coisa fácil e proveitosa de se fazer. Voltam a brilhar tão depressa.

Diário, Primeiro Volume 1915-1926, Bertand Editora, p. 47

08/11/14

Os nadadores

Vivemos com o nariz mergulhado no rio do tempo; eis que recuamos, nadadores outrora, passeantes do presente, estamos perdidos. Somos fora da lei, ninguém o sabe, e contudo cada um de nós nos trata como tais. 

Kafka, Antologia de Páginas íntimas, Guimarães Editora, p. 30.

Eu - Quando estou inspirada

Inspiração é só quando eu me ultrapasso
e nem acredito que seja verdadeiramente da espécie humana.

06/11/14

No restaurante

'As cortesãs são profissionais liberais da esquina.'
'Porquê da esquina? São da corte! Corte-sã. Tesão da corte... Nevermind.'

04/11/14

Do dia (13)

Acordei vazia. Tive a certeza que sou cada vez menos corpo onde vivo. Concordaram. Li, chorei e bebi dois cafés. Comprei uma antologia de páginas íntimas de Kafka, irmão mais velho - foi o único objecto que não me pareceu dispensável.
Tomei uma decisão. E bebi outro café.
Pelos vistos, as pessoas vazias gostam de se manter acordadas.

Carta ao Pai (12)

É como se
o meu pai pudesse falar

Seu enorme corpo
Silente e maciço
Sob a pele branca e fria
A merda sólida
A aversão

Homem, macho, seu caralho que eu amei
Sobre todos os outros, sobre a bondade, tão sobre
O prazer amei o seu ódio, a frieza
A indiferença, o negrume sólido

A cabeça voltada para outro lado
Os olhos voltados para outro lado
O peito, as mamas, o fato de banho - metade
De mim, metade meu! Nunca meu, nada,
Não sei qual de nós quero
eu matar por isto mas quero algum
Sangue espesso
Algum carvão no corpo algum
Fogo esse corpo ardente de bourbon
Caralho prometido e nunca dado
Pelo qual eu era capaz de me esfolar.

Agora quebrando o seu silêncio, vejo como te
Extravasas sobre as palavras
Extravasas sobre o fim dos versos
para te suspenderes no espaço negro isolado
Só e humilhado, ali gingando como uma
Estrela, um herói

Eis-me aqui fora contigo
Agora contra o farrapo do silêncio quebrado.

Sharon Olds, p.135

02/11/14

Estar só

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Para a {anita}, que me deixa ver o seu coraçãozinho de robot a trabalhar. 

A família perfeita


Aldous Huxley, A ilha, p. 145