30/10/14

Coisas de vizinhos

Ouvia demasiado alto - e cantava - a Suzanne. Fui para a varanda, continuei a cantoria, até que oiço um acompanhante. O meu vizinho da frente cantava comigo.

28/10/14

Rapariga que mexe a mão enquanto lê ao pé da janela


You belong to me


Estou a ouvir isto desde que acordei e já não consigo parar.

Eu - Quando as freiras me castigavam por não comer puré de batata

Qual pimenta na língua
qual quê!
Quando provar cianeto,
venho aqui contar a que é que sabe.

Komurasaki

Komurasaki
Cortesã durante o período Taisho.

Eu - Quando compro tampões para os ouvidos


Finalmente podem falar comigo
sem me interromperem.

Livreiros cultos

'- Tem o livro x, de Proudhon?'
'- De momento, o seu pedido é utópico.' 

27/10/14

Do dia (12)

Hoje, acordei a senti-me uma ilha que vive com a sensação de continentalidade imposta.

26/10/14

A ilha

'- É inacreditável! Nem uma pergunta acerca da qualidade dos nossos sentimentos, pensamentos e percepções. E quanto à sociedade a que é suposto devermos ajustar-nos? Trata-se de uma sociedade louca? De uma sociedade em boas condições mentais? 
Abrindo-se num dos seus sorrisos cintilantes, o embaixador pronunciou-se: 
- Deus torna primeiramente loucos aqueles que deseja destruir. Ou, alternativamente, e talvez até com maior eficiência, torna-os primeiramente sãos.' 

Aldous Huxley, A ilha, Antígona. P. 122.

No café

'Aquela cantora, a Mónica Sintra? Já se foi!'
'Então, morreu?!'
'Não morreu, não! Foi pró Algarve!'

25/10/14

Na inauguração de uma exposição

Aproxima-se uma senhora com alguma idade e uns copos a mais. Aponta firmemente para o meu nariz e diz:
- Olhe, tem um brinco!

(Oh! Que bom que me informou! Alguém tem um guardanapinho?)

13 13 13 13 ...

Se eu morrer antes de você
Faça-me um favor: chore o quanto
quiser, se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir
chorar, não se preocupe
se tiver vontade de
rir ria.
- E se tiver vontade
de rir ria muito...
... se tiver vontade de
escrever alguma coisa sôbre mim; diga apenas uma
frase: «foi meu amigo, acreditou
em mim e me
quis mais
perto de deus».

José Fernandes de Oliveira

23/10/14

Poor unfortunate souls


Do minuto 4.48 em diante.

Brincas todos os dias

Brincas todos os dias com a luz do universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.
Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas. 

Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul? Ah deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.
Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.
Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.

Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.
Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.
Agora, agora também, pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados. 

Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.
O que te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcerem-se os crepúsculos em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do universo. 

Vou trazer-te das montanhas flores alegres, «copihues»,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos. 

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.

Pablo Neruda

22/10/14

Un bel di vedremo




Do you see it? He is coming!
I don't go down to meet him, not I.

I stay upon the edge of the hill
And I wait a long time
but I do not grow weary of the long wait.

He will call Butterfly from the distance
I without answering
Stay hidden
A little to tease him,
A little as to not die.


At the first meeting,
And then a little troubled
He will call, he will call
"Little one, dear wife
Blossom of orange"

The names he called me at his last coming.

Relato de um espião

Um certo Francesco Tartaglia, detido durante doze dias no Castel Nuovo de Napoles por ordem do conselheiro real Don Giovane Sanchez de Luna, ouviu falar várias vezes Fra Tomazo Campanella e Fra Pietro Ponzio. Concretamente, na noite de 14 de Abril, Tartarglia e dois outros guardas da prisão ouviram o que se segue: Fra Pietro chamou quatro vezes Fra Tomazo assim:

Fra P. - Ó Fra Tomazo, Fra Tomazo, Fra Tomazo, ó Tomazo não me ouves, meu doce amigo?
Fra T. - Boa noite! Boa noite!
Fra P. - Ó meu doce coração, como estás tu? Coragem que o mensageiro vem amanhã e nós saberemos qualquer coisa.
Fra T. - Ó Fra Pietro, porque não arranjas maneira de abrir esta porta, pois dormiríamos juntos e seria uma grande alegria.
Fra P. - Deus me permita dar aos guardas dez ducados e a ti, meu doce amigo, dez beijos por hora. Espalhei os teus sonetos por Nápoles inteira e sei-os todos de cor, pois não há nada que eu deseje mais do que ler coisas de ti.
Fra T. - Hei-de dá-los ao mensageiro.
Fra P. - Sim, meu doce coração, mas faz-me graça de mos dar primeiro a mim e a Ferrante meu irmão, e depois fazes uns para o mensageiro.
Fra T. - Vai descansar! Boa noite!

Marguerite Yourcenar, O Tempo esse grande escultor, Difel Difusão Editorial, p. 46

Eu - Quando me perguntam se sou descontraída


Não esperes descontração
Quando a minha missão é dominar.

A criança injustamente castigada

A criança grita no quarto. A raiva
lateja-lhe na cabeça.
Sofre mutações como o metal sob forte
pressão a altas temperaturas.

Quando esfriar e sair por aquela porta
não será a mesma criança que entrou a correr
e bateu com ela. Acrescentou-se uma liga. Agora
há-de rachar em riscos diferentes quando lhe baterem.

Está mais forte. A longa adulteração
começou esta manhã.



Sharon Olds; Satanás Diz; ed. Antígona
tradução de Margarida Vale de Gato

No bar

'O que é que estás a tirar?'
'Gestão. E tu? O que tiraste?'
'Filosofia.'
'Ouh, isso é preciso ter pancada!'

21/10/14

April come she will


September, I'll remember.

Do dia (11)

Hoje acordei tarde e fiquei na cama até mais tarde. O meu corpo anteviu antes da minha consciência que iria ter um dia determinante. Discuti, chorei muito, solucei como um bebé. Determinou-se o dia e abriu-se um caminho. Escreveu à minha frente. Fomos ver o Bambi solto em fotografias. Comemos sushi num banquinho verde de jardim. Demos as mãos na rua sem entrelaçar os dedos. Bebemos cerveja e um brinde a nós. Acabei a tarde a relatar que uma pessoa é um singular e por isso, é universal.

(Agora estou pirosinha, pirosinha. Mas é como se não tivesse culpa.)

Muito


20/10/14

Eu - Quando o meu orientador me vier perguntar o que fiz durante este mês


É melhor levar lenços.
Poderá cair-lhe uma lágrima de comoção
por saber que estou a ficar crescidinha.

De Gilberto Gil para Caetano Veloso


Onde as aproximações e os afastamentos se dessem sempre
sem a perspectiva de separação mas,
antes,
com a garantia elástica da unidade de um despropósito.

O Idiota

With quietism like yours, one could fill a hundred years with happiness.

Dostoyevsky, The idiot.

Eu - À espera de companhia para almoçar


Oh, estou tão só e com tanta fominha... 

Livro de padrões japonês


Para kimonos.
Encontrado aqui.

Eu - A fazer fichas de leitura


Não há ninguém
a querer desbravar comigo
esses densos caminhos do intelecto?
 

19/10/14

O Retrato de Dorian Gray

Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, p. 92

Aos amores!

O meu vizinho de cima coloca banda sonora na minha vida. Infelizmente para mim, é James Blunt, que eu ouvia quando forçava a depressão adolescente. Quando cheguei a casa, estranhei que ele estivesse a ouvir rock.
Fui pôr o lixo na rua. Passou por mim de mãos dadas com outra pessoa. Viva!
As minhas noites terão uma banda sonora mais bonita de hoje em diante, esperemos.

Daquela conversa do homem com três pernas


The Human tripod, Marlene Dumas, 1988
(Pormenor) 

Falo deste post.

17/10/14

Carta ao Pai (10)


Balthus, A Rapariga e o Gato, 1934

Jimmie Durham (e Saramago)

Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbem a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que lhe falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza que toda se está compadecendo do aflito devedor.

Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a proposição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não repararam que doutra maneira não podia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Jimmie Durham, Ricardo Reis, 1995

16/10/14

Argumento

Argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que se ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes.

Pascal Quignard

Deste excelente blogue.

O berlinde comilão

Descobri que há um berlinde que tem nome de quem come o universo. Pensei que a sua boca tinha que ser elástica, pelo menos até conhecermos os seus limites. Desejo que esse berlinde não tenha boqueiras - é que comer o universo pode ser doloroso.

Eu - Quando me tentam motivar no ginásio


'Apoiar os cotovelos! Esticar a perna! Pensem que são um cão a fazer xixi!! Isso, para o lado! Boa! Agora ponham a perna no chão, braços no ar e voem, voem!!'

CVNI
Cão Voador Não Identificado

14/10/14

Leonard Cohen e a amiga


Eu - Com problemas


Oh, driver
can you help this poor, lost, woman? 

Eu - Em pausa


Estou só a descansar
mas não dispenso uma boa
conversinha.
Marotos.

Os estudantes e os autistas entram numa reprografia (onde está um filósofo)

Esperei mais de uma hora por fotocópias, enquanto o senhor debitava para o ar coisas como 'eu acho que os verdadeiros filósofos são os jornalistas de guerra', 'eu não confio nada em quem passa a vida com o rabo sentado a pensar e a fingir que estuda' e 'eu também sou filósofo, mas não gosto de escrever, porque me pára o pensamento'.

Nisto, entra um miúdo com o pai. Passa a correr pelo balcão, diz olá a toda a gente, cumprimenta o senhor filósofo com um grande abraço e sai disparado, com jeitos de miúdo traquinas. 'O menino gosta mesmo de si!', disse eu.

'Não, não gosta. Este miúdo não pensa. É autista.'

No café

'Há coisas às quais não podes dizer, nem sim, nem não. Tens que aceitar e pronto.'
'Como o quê?'
'Como uma relação de muitos anos. Já estás lá, é mais uma perna que tens, para o bem e para o mal.'
'A tua é assim?'
'É.'
'E se disseres que não?'
'Em vez de ficar coxo, fico tri-coxo. A perna é tão grande que as outras duas ficaram enfezadas.'

Isolamento e Solidão

No isolamento, o homem permanece em contacto com o mundo como obra humana; somente quando se destrói a forma mais elementar de criatividade humana, que é a capacidade de acrescentar algo de si mesmo ao mundo ao redor, o isolamento se torna inteiramente insuportável. Isso pode acontecer num mundo cujos principais valores são ditados pelo trabalho, isto é, onde todas as actividades humanas se resumem a trabalhar. Nessas condições, a única coisa que sobrevive é o mero esforço do trabalho, que é o esforço de se manter vivo, e desaparece a relação com o mundo como criação do homem.

Solidão não é estar só. Quem está desacompanhado está só, enquanto a solidão se manifesta mais nitidamente na companhia de outras pessoas. Na opinião de Epicteto (“Dissertationes”, livro 3, capítulo 12), o homem solitário (“éremos”) vê-se rodeado por outros com os quais não pode estabelecer contacto e a cuja hostilidade está exposto.

Hannah Arendt. “O Sistema Totalitário”. P. 588-590.

12/10/14

Eu - Quando vou andar de baloiço


Nunca tive medinhos.
Nem traumas.

A Parker


Via. 

Do dia (9)

Fui tomar café. Quando cheguei a casa, uma mulher estava a fumar à entrada. Tirei a chave do bolso e, em vez de abrir a porta, destranquei-lhe a garganta e guardei-lhe a voz.
É que, nesta correria, não me posso arriscar a amarrar a um poste ou a cobrir os ouvidos com cera.

11/10/14

Carta ao pai (9)

Só podes tratar uma criança de acordo com a tua natureza o que, ainda por cima, te parecia inteiramente apropriado no meu caso, já que querias fazer de mim uma pessoa robusta e corajosa. Depois cresci e a minha própria loucura refugiada dentro dela mesma, como num ataúde, a loucura dos outros que julgavam ver aqui um autêntico ataúde e [a tua loucura] que via um ataúde que se podia transportar, abrir, tocar por qualquer outro.

Kafka, Antologia de pensamentos íntimos, Guimarães Editora, p.113.

10/10/14

The build up


The build up
lasted too long.

No Francês (2)

'Em francês, on fois une sieste. Só que não se faz muita coisa.'

No Francês

'On va conjuguer le verbe aller. Kika?'
'Je 'vá', tu...'
'Non, Kika. A boquinha aberta é muito bonita, mas às vezes é preciso fechá-la.'

Deus me ajude nestas horas.

09/10/14

Carta ao Pai (8)

Não são apenas as injúrias 'esquecidas' ou suportadas em silêncio, mas também as que registámos, que nos roem, que nos tolhem, que nos acossam até ao fim dos nossos dias.

E nem sequer é verdade que lhas perdoaremos depois da morte.

A imagem do seu cadáver apazigua-nos sem dúvida, e força-nos à indulgência; mas a partir do momento em que essa imagem se esbate e em que na nossa memória a figura do ser vivo leva a melhor sobre a do defunto, substituindo-se-lhe, os nossos velhos rancores ressurgem, reganham força, com todo esse cortejo de vergonhas e de humilhações que durarão o mesmo tempo que nós e cuja recordação seria eterna, se nos tivesse tocado a imortalidade em parte.

E. M. Cioran, História e Utopia, Letra Livre.

Do alimento, da sede e da desistência como progresso

Ainda que reduzida ao ínfimo, a vida alimenta-se de si própria, tende para um excedente de ser, quer crescer sem sombra de razão, através de um automatismo desonroso e irreprimível.
Uma mesma sede devora o moscardo e o elefante.

A capacidade de desistência constitui o único critério do progresso espiritual: é só quando as deixamos, que acedemos à nudez interior, a esses extremos em que paramos de nos prender a este mundo e a nós próprios, e em que a vitória significa demitir-nos, recusarmo-nos com serenidade, sem remorsos e sobretudo sem melancolia; porque a melancolia, por discretas e aéreas que as suas aparências sejam, continua ainda a revelar do ressentimento: é uma cisma com o selo do azedume, um ciúme mascarado de desfalecimento, um rancor vaporoso.

Enquanto lhe permanecermos sujeitos, em nada desistimos de nós, atolamo-nos no 'eu', sem contudo nos desprendermos dos outros, nos quais pensamos tanto mais quanto menos tivermos conseguido desapropriar-nos de nós próprios.

E. M. Cioran, História e Utopia, letra Livre, p. 92 e 93.

Os kimonos de Maiko Hiroko


Os kimonos de Maiko Hiroko eram despidos, descosidos, lavados e colocados a secar, para depois serem cosidos à mão.


Memento

08/10/14

O silêncio dos inocentes


Oh, Hannibal, Hannibal...

Eu - Quando vou pedir um café e me dizem que ainda não tenho idade para bebê-lo


Foi quase tão mau como terem perguntado,
de baton em punho,
se era caloira.
Estou a precisar de um transplante de atitude.

No autocarro

Duas raparigas de 16 anos: 
'As lésbicas são todas sinistras...'
'E têm profissões estranhas...'
'Yaah... Tipo profissões que só são úteis noutro mundo...'
'Yaah... Mas a irmã da Rita é muito gira...'

07/10/14

Olá, eu sou o John Rawls e...


*

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Herberto Hélder, Photomaton & Vox

06/10/14

Se tu m'ami


Bella rosa porporina
Oggi Silvia sceglierà,
Con la scusa della spina
Doman poi la sprezzerà.

A Bela Rosa vermelha 
Hoje Sílvio escolherá, 
Com a desculpa do espinho 
Amanhã então a desprezará.

Eu - Quando me lembro que me disseram que se estudasse economia, ia tornar-me adepta do liberalismo


Seus malandrecos. 
A mamã acredita e depois era brincadeira! 
Tau-tau no rabiosque. 

04/10/14

Cartas


Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e ao seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural da sua vida íntima leva-lo-á lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos.

Permita que as suas avaliações sigam o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa de vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. 

Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, num ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza.

Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta

Ouvir é sempre um alívio -
- é como saber que ainda temos tempo.

Do dia (8)

Acordei às horas programadas.
Vesti-me, comi, ligaram-me, estudei, senti angústia, fui passear, voltei. Reclamou da loiça; reclamou das coisas por fazer, dos livros por arrumar, da minha distração constante, de não ter cumprimentado a pessoa-importante-para-o-meu-futuro. Sábia declamadora de reclamações.
Eriçaram-se os pelinhos dos braços, dei corda ao relógio e voei.

(Os ex-dias também merecem registos.)

The bag

03/10/14

Construção


Ergueu e soluçou como se fosse máquina

E pela paz derradeira de quem vai nos redimir.

02/10/14

Every time we say goodbye


Every time we say goodbye
I die a little

Carta ao Pai (7)

Res.tric.tion

Capacidade de controlar a forma como reagimos. 
Impulso para, sem pensar e roboticamente, responder a circunstâncias externas.
Esta capacidade é a base da nossa liberdade.

Lo.li.ta

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.

… – e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar. Ela era só um eco de aroma ténue violeta e folhas mortas da ninfeta sobre quem eu gostara no passado com tantos gritos; um eco à beira de uma ravina rubra, com um arvoredo esparso sob um céu branco, folhas castanhas entupindo o leito do riacho, e um último grilo perdido em meio à relva ressecada… mas graças a Deus não era só esse eco que eu adorava.

Vladimir Nabokov, Lolita

Três tristes tigres liberais

Hoje aprendi que os liberais devem ser pessoas muito tristes e desconfiadas porque acreditam que um conjunto de instituições lida melhor com os indivíduos do que eles próprios. Devem ser muito infelizes, os liberais. 

01/10/14

Papéis


Guardo no bolso das calças
pequenos papéis onde escrevo
pobres amostras
de poemas
Quando os enfio na máquina
de lavar roupa,
que tudo lava e leva
com a água
é a glória da branca memória.

Daqui.

Eu - Quando me perguntam o que faço o dia todo agora que não tenho horário


Nada.
Visto o meu kimono, a minha pena no cabelo
e fico a olhar para o horizonte que termina no canto do meu quarto.

Sou assim, desocupada e disponível.

Eu - Quando o meu professor de francês fala inglês


ôh, â, ôh bufar, bufar, ôh, ôh
et
voilá.
 

Na livraria (2)

Livreiras estão a arrumar livros:
'Nesta estante nunca sei se é o Santo Agostinho ou o Agostinho da Silva. São tão parecidos...' 

Na livraria

Grupo de alunos de Direito entra:
'Que seca, este ano vamos usar outra vez a constituição!'

Acabo de compreender uma série de problemas governamentais. 

No quiosque

'Algum destes salgados não tem carne ou peixe?'
'O de camarão.'

Ladaínha ao metro

Eu tenho fome. A minha doença não tem cura. O meu filho está a chorar. O meu pai foi atropelado. A minha mãe tem SIDA. Quero comprar dez pêssegos a cinquenta cêntimos o quilo. Eu tenho fome.

Eu - Quando me perguntam se gosto de andar descalça em casa


Não. 
Só ando ao colinho.