30/09/14

Dos pés

Um homem tem que viver.
E tu, vê lá, não te fiques - um homem tem que viver com um pé na Primavera.

Fernando Assis Pacheco

No café

- A menina, sempre que vem aqui, ou está com muita pressa, ou está com muita calma.

Das dificuldades

Estou com uma crise de criatividade. Nem poemas, nem imagens, nem músicas, nem nada.
Perguntassem-me o que tinha e eu diria que a única coisa que consigo fazer é ler as coisas dos outros. Felizmente que escritores a sério existem.

28/09/14

O albatroz

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

(À minha querida Aninhas, sempre sensível e aplicada.)

27/09/14

Dos beijinhos antes da morte

Quando uma pessoa sabe que vai morrer, dá mais beijinhos do que uma pessoa que parece que não sabe que vai morrer.

25/09/14

Eu - Quando saio com as minhas amigas


Gostamos de condizer.

Porque me olhas assim


E lá fomos audazes
Por passeios tardios
Vadiando o asfalto
Cruzando outras pontes
De mares que são rios

E num bar fora de horas
Se eu chorar perdoa
Ó meu bem é que eu canto
Por dentro sonhando
Que estou em Lisboa

O que vocês não sabem nem imaginam

Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo,
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.

Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos.

Eduardo White

Das preocupações sociais

Perdoamos aos outros as suas riquezas se, em troca, eles nos deixarem a latitude de morrermos à fome à nossa maneira. Não, não é assim tão sinistra esta sociedade que não se preocupa connosco, que nos abandona, nos garante o direito de a atacarmos, nos convida e obriga até a fazê-lo durante as suas horas de preguiça, quando já não tem energia suficiente para se execrar a si própria. Tão indiferente, em ultima instância, à sua própria sorte como à nossa, não pretende de maneira nenhuma intrometer-se nas nossas desgraças, nem para as suavizar nem para as agravar, e se nos explora, fá-lo por automatismo, sem premeditação nem maldade, como convêm a brutos cansados e saciados, tão contaminados pelo cepticismo como as suas vítimas.

E. M. Cioran, História e Utopia, Letra Livre, p. 17

No café

'Viste a casa dos segredos?'
'Não. Estou f* porque não entrei.'
'Concorreste? Qual era o teu segredo?'
'Deixei crescer as unhas por mais de um ano.'


22/09/14

Eu - Quando conheço ao vivo quem só conheço da internet


Parece que escolho bem quem visito!
Enchantée. 

A Procissão (por João Villaret)


Vai passando a
pro-
ci-
ssão.

Eu - Quando o inesperado acontece


Uma pessoa tem boa vontade
e depois, afinal, foi asneira. 

Da língua

Gostaria V. de saber se tenho a intenção de voltar um dia à nossa língua, ou se penso permanecer fiel a esta outra na qual me supõe, de maneira algo gratuita, uma facilidade que não tenho, que nunca terei. Seria iniciar a história de um pesadelo contar-lhe com alguma minúcia a história das minhas relações com este idioma de empréstimo, com todas estas palavras pensadas e repensadas, vergadas pelas vexações do matiz, inexpressivas por tudo terem expressado, aterradoras de precisão, carregadas de fadiga e de pudor, discretas na própria vulgaridade.

E. M. Cioran, História e Utopia, Letra Livre.

21/09/14

O caçador da Adiça


As coisas que a gente faz
A dar vazão ao que sente
Já pensava em vir pra trás
Sai-me um vulto pela frente

Quando era mais pequena, tinha uma paixão pelo Vitorino, daquelas mesmo assolapadas.

Carta ao Pai (6.1)

da série Carta ao Pai,
na variante Carta aos Pais

A casa estala com segredos;
todos preparam o seu plano de fuga.
Alguém se desmorona sem produzir um som.
Às vezes, alguém sai de casa
numa maca, num silêncio terrível.
Quanta energia gasta em sofrimento!
É como um fogo que arde sem parar
mas não consegue arder até ao ponto da sua extinção.

Lisel Mueller

(Lembro-me que copiei de um blogue para um papel, que agora encontrei entre o livro que releio. Não me lembro de onde, mas o poema é maior. Não copiei o título. Fica assim. Alvíssaras a quem encontrar o original, na língua original. E o título.)

Um dia no trabalho


Computer, define dancing.

20/09/14

Do dia (8)

Acordei cedo. Perguntaram-me quando queria ter filhos. Perguntaram-me quando queria casar. Perguntaram-me se queria o café cheio, se queria com açúcar. Perguntaram-me para onde ficava o miradouro, o que é que tinha feito ontem, se queria ser membro da igreja não-sei-quê, se ia para casa, se amanhã nos encontrávamos, se falava castelhano, se era de esquerda, por que razão sorria muito.
Devia ter tirado guia de qualquer coisa. 

Eu - Quando vou ao psicólogo


Ando muito clara ultimamente.

We might be dead by tomorrow



So let's love fully
Let's love loud
Let's love now
'Cause soon enough we'll die

19/09/14

Carta ao Pai (6)

Perpnon kanon
o encanto da conversa agradável, as gentilezas que tornam a vida amável. 

Não canto porque sonho


Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados.

18/09/14

Eu - Quando sou irresistível


A Juventude Monárquica de Santarém
pediu-me amizade no facebook.
Sinto-me irresistível.

Eu - Em meia-estação


Uma pessoa já não sabe
que meias há-de vestir.

Ortodoxias




Este poster russo, datado de 1991, sintetiza o renascer da Igreja Ortodoxa, e da religião dum modo geral, na Rússia, após mais de 70 anos de opressão sob um regime que promovia um ateísmo militante em nome duma muito limitada ideia de progresso científico. Na imagem, a bandiera rossa é transformada na Tricolor, actualmente usada pela Federação Russa, através do Cristo.

Gentilmente cedido pelo Mário.

Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo

Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo, o construtor sobe a uma torre de pedra para meditar um pouco. A plenitude da tranquilidade é perfeita nos campos fulvos e ondulados em redor, cobertos de ervas altas, de flores e arbustos e marginados por um riacho sob a penumbra verde de um arqueado tecto de folhagem. Dir-se-ia que o olhar do construtor encontrou o ser em extensão, o ser que se oferece, no seu mutismo eloquente, e ao mesmo tempo se guarda no mesmo espaço do seu tranquilo esplendor. A meditação não é mais do que a contemplação de uma matéria que contém em si o excesso da sua energia calma e a densidade materna que envolve todas as interrogações e torna supérfluo e intruso o pensamento. Por isso o construtor se integra na paisagem e, reflectindo-a, não a elabora nem a altera. Toda a sua vida está intacta e plenamente segura na indistinção entre o seu íntimo e a túmida e fresca serenidade da paisagem que o envolve. A realidade exterior passou a ser a matéria mais íntima e mais pura da relação total e, inversamente, o contemplador converteu-se num elemento da paisagem que a partir dela própria a vê e nela se vê. Esta circularidade é a mais harmoniosa manifestação do uno e o alvo da construção será criar o espaço mais propício à sua tranquila fulguração. Não há segredo mais supremo nem mais simples do que esta relação vital entre o corpo e o espaço, entre o alento e a paisagem, entre o olhar e o ser.

António Ramos Rosa

17/09/14

Eu - Quando falo italiano


Falar com desconhecidos é sempre uma aventura fabulosa.
Estou à espera que me apareça um chinês.





As ilhas desconhecidas

As manhãs são extraordinárias. Tons neutros - quase o mesmo tom apagado - névoas esbranquiçadas e moles... Neste ar parado o próprio som amortece: envolve o mundo uma pasta de algodão em rama, um vapor incorpóreo que apaga as cores, imobiliza a paisagem e faz do mar atmosfera. É um eterno dia de finados, recolhido e atento em que o vento pára e não sopra. Branco e quieto, branco e mole, branco magoado, claridade tão íntima que eu próprio desfaleço.

Raul Brandão, Obras Completas de Raul Brandão, Editorial Comunicação.

Boi de Haxixe

16/09/14

Na rua

Estou a ver uma montra - que tem, em largura, seis ou sete vezes a minha - e sai uma empregada de dentro da loja: 

- A menina precisa de ajuda? 
- Não, estou só a ver, obrigada. 
- Então saia da frente da montra, pode haver quem queira ver e comprar. 

Carta ao Pai (5)



In that dream I could hardly contain it
All my life I will wait to attain it

There, there, there


*

All these voices I'll someday have turned off

I will see you someday when I've woken

I'll be so happy just to have spoken
I'll have so much to tell you about it

*

O Processo


― Não pode sair; o senhor está preso.
― Assim parece ― disse K. ― E por que razão?
― Não é da nossa incumbência darmos-lhe explicações. Volte para o seu quarto e aguarde. O processo já está a correr, o senhor será informado de tudo na devida altura. Já estou a exceder os limites da minha missão ao falar-lhe assim tão amavelmente; no entanto, espero que pessoa alguma, além de Franz, me ouça; Franz, aliás, contra todos os regulamentos, trata-o com verdadeira amizade. Se daqui para o futuro, o senhor tiver tanta sorte como a que teve com os seus guardas, poderá acalentar esperanças.

K. quis sentar-se, mas reparou, nessa altura, que em todo o quarto não havia nada que pudesse satisfazer o seu desejo, à excepção do sofá perto da janela.

― Ainda há-de compreender como tudo isto é verdade ― disse Franz, que, juntamente com o outro homem, se aproximava de K. Especialmente perante aquele último que repetidas vezes lhe batia nos ombros, K experimentava um sentimento de inferioridade.

Kafka

Touch me


(Vamos tirar um momento
para apreciar esta música.)

14/09/14

Ó Adão

Não te dei, ó Adão nem rosto nem lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los. 

Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cuja mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no centro do mundo para que melhor pudesses contemplar o que o mundo contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou hábil escultor, dês acabadamente a forma que te é própria.

Pico della Mirandola, em epígrafe da Obra ao Negro, Marguerite Yourcenar

A casinha e a roupinha (a imagem feminina)



Idem. 

A imagem feminina

                                      

Ivone Leal, A Imagem Feminina nos Manuais Escolares, Cadernos da Condição Feminina 11, Agosto de 1979

Learning the Blues


When you're out in the crowd
The blues will hunt your memory.

Les uns et les autres



É mesmo para ver até ao fim. 
Até me crescem lágrimas nos olhos.

13/09/14

Do dia (7)

Acordei com tossicar de gripe dez minutos antes do despertador tocar. Fiquei no mimo e na conversa doce. Encalhei com o cotovelo na maçaneta, demorei tempo demais a vestir um fato de treino, fiz a cama enquanto tocava rádio, levei para sublinhar o meu livro dois tons de azul que afinal com a luz eram azul e roxo e bebi sumo de laranja ao pequeno almoço. Pus açúcar no café. Conversámos do coração. Li. Escrevi. Li. Li. Li. Fiz exercícios do secundário e fiquei contente porque ainda me lembrava de lógica. Convidaram-me para tomar café. Voltei a ler, fiz uma lista de objectivos e dei pontapés no ar durante uma hora. Convidei para jantar. Jantar, não; passo aí mais tarde. Esforço do coração. Voltei a ler.

Hoje, nem escutar de melancolia.

Missa de Aniversário

(...)
Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte.

Ruy Belo, Obra Poética de Ruy Belo - Aquele Grande Rio Eufrates.

Eu - Quando me preparo para a minha soirée


Gosto de me apresentar
decente. 

Da onirocrisia (relativo ao género)

O sonho [masculino] é, em contrapartida, desfavorável quando se trata de [sonhar com] uma mulher casada; pois ela está sob poder do seu esposo; a lei proíbe que se lhe tenha acesso e pune os adultérios; e o sonhador deve esperar futuramente castigos do mesmo género.

Sonha-se estar a ter relações com um homem? Se o sonhador é uma mulher, o sonho é favorável em todos os casos, pois está conforme aos papéis naturais e sociais da mulher.

Se, pelo contrário, é um homem que sonha que está a ser possuído por outro, o elemento de discriminação que permite distinguir o valor favorável ou desfavorável do sonho depende do estatuto relativo dos dois parceiros: o sonho é bom quando se é possuído por alguém mais velho e mais rico (é uma promessa de presentes); é mau se o parceiro activo é mais jovem e mais pobre - ou apenas simplesmente mais pobre: sinal de despesas, com efeito.

(Comentário à Chave dos Sonhos, de Artemidoro.)

Michel Foucault, História da Sexualidade - III, O cuidado de Si, p.28

Saeglópur (Marinheiro)


Tu és uma raposa
Tu tens o ar
Tu sentes-te em guerra
Sozinho.

Um marinheiro com vida
A vir para casa.
Com o mergulhador, ele vem
Vem para casa.

(A letra original, aqui.)

É magnífico.

No café

Estou a ler de pernas à chinês na cadeira. O senhor ao meu lado interrompe a sua leitura do Expresso e diz:
- Isso não é posição de menina! 

10/09/14

Escrever e comunicar

— Escrever não é comunicar. Ou será comunicar à distância? 
— Escrever é fazer sinais de fumo.

Eu - Quando me perguntam em que postura caço

Bang bang.
O que interessa é estar bem calçado para a atividade.

We were the Mulvaneys

'E era estranho que ela se lembrasse: como havia entrado no seu quarto, que estava exactamente como quando saíra no dia anterior, no entanto, inequivocamente mudado. Como se soubesse que havia estado longe, incrivelmente distante. Como se tivesse partido e agora não pudesse regressar.' 

Joyce Carol Oates (tradução minha)

Carta ao pai (4)

09/09/14

Das entradas na faculdade


Eu - Quando ganho vida


Os cavalos também se abatem


Alice: Somebody screamed.
Rocky: That was you, Alice.

Dos carinhos

Duas pessoas, de quem gosto imensamente por diferentes razões, conhecem-se. Estou sozinha com uma delas, que me diz que acha a outra muito carinhosa. Quando volto a estar com 'a carinhosa', o comentário é o mesmo em relação à primeira. 

Ao telefone

Já não aguento mais as tuas ideias irrefletidas. Por que fazes o que queres? Laura, tu sonhas e achas que é realidade.

(Tendo sido dito como uma ofensa, foi das coisas mais bonitas que me disseram. Precisamente porque é assim mesmo.)

08/09/14

Dos beijinhos

Enquanto espero por uma amiga, há alguém atrás de mim que chama com beijinhos. Olho e estão a chamar o gato. Nitidamente acho que mereço todos os carinhos do mundo. 

Officium Novum


16 minutos de êxtase.

04/09/14

Sózes

Eu estou só.
O gato está só.
As árvores estão sós.
Mas não o só da solidão: o só da solistência.

Guimarães Rosa

Ivan's childhood


Tarkovsky.

Retrato de um artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros

À anita, como é claro.

Eu - Quando venho do ginásio


Imagina uma azeitona a fazer abdominais
de fato de treino cor de rosa.

Ligações


Martha Nussbaum, Sex and Social Justice. 

Manhattan


Posologia: repetir até entrar. Forçar se necessário.

03/09/14

Setembro


Toda a gente devia conhecer esta doce
voz.

Novas vizinhanças

O meu vizinho de cima, à tarde, ouve música altíssima.
Hoje a mãe põe as chaves na porta e música emudece-se.
'Filho, quié'q estás a fazer?'
E ouve-se um grito:
Estou a estudar, mãe!

Eu - Quando tenho espírito competitivo (2)


Miss Lovely Eyes.

(a cair é que a gente se) Entende


I'm afraid I can't explain myself, sir. Because I am not myself, you see?

Do dia (6)

Acordei cedo e doente. Tomei banho, mas não comi. Estava doente. Fui à farmácia, pus-me melhor, um homem passou por mim e disse, Mamas boas. Li, mas doeu-me a cabeça. Li outra vez. Senti que o ninho que eu pensava que já tinha desfeito - e desfeito primeiro, heroicamente - afinal ainda tinha palhinhas e fiquei triste. Pensei, Que apegada que és de vez em quando, Laura. Assisti a uma conferência sobre a verdade em Kant e a outra sobre Wittgenstein e fiquei feliz porque os oradores pronunciavam Vitguénchtáin em vez de Vitguénsstáin. Vesti as calças de ginástica, rasguei papéis antigos, limpei a secretária e fui embora: qualquer ginásio tem a música demasiado alta para não ser obrigada a ouvir-me pensar.

Eu - Quando vou ao alfaiate


Gosto de saias rodadas. 

Dalí e o seu tamanduá


Eu - Quando tenho espírito competitivo


Polícia compara tornozelos de mulheres.
É uma competição em Londres (1930). 

01/09/14

Ao almoço

'Esta quiche tem carne ou peixe?'
'Não, menina.'
'Então queria uma fatia.'

'Desculpe, tem a certeza que não tem peixe? É que sinto um sabor diferente...'
'De certeza! É de atum, mas é de lata, não é do mar, pode comer!'

Eu - Quando vou ao ginásio (e os outros que já lá estão)

Os outros.


Eu.
 Senhor, tem piedade de mim,
faço parte do teu povo pecador,
toma a minha vida de pecado e dor,
enche-me o espírito de amor (e força nos glúteos).

Eu - A estudar História d'Arte


Não sou gorda.
Sou barroca.