31/08/14

What

people die between birthdays and go on for years;
what stops things for a moment
are the words you’ve found for the last bit of light
you think there is

Stephen Dunn

Tanto mar


Cheirinho de alecrim.

Elivis-Beatles, Beatles-Elvis


Do dia (5)

Hoje, achou que as minhas palavras eram um poema e escreveu-as. Só estamos a meio do dia, mas já me sabe a dia todo.

George Steiner

Demoliram-lhes [os mestres aos discípulos] o espírito, roubaram-lhes a esperança e a individualidade e exploraram a sua condição de dependência. O domínio da alma tem os seus vampiros. 

As lições dos Mestres, introdução. 

A paixão

A paixão não precisa de pão 
A paixão é um espinho no coração 
A paixão quer a mão 
Era uma vez uma paixão tão boa que com a mão dava pão ao coração. 

Adília Lopes

30/08/14

The Old Days

Tell no one
How I visit you.

Death of a Lady's Man
Leonard Cohen

Jean-Luc Godard



Intimidades


Picasso e o seu cão


La Javanaise


Ne vous déplaise 
En dansant la Javanaise 
Nous nous aimions 
Le temps d'une chanson

Quando me abandonei em ti,

eras pensamento,

algo
murmura entre nós dois:
do mundo a primeira
das últimas
asas,

em mim cresce
a pele sobre
tempestuosa
boca, tu não chegas até ti.

Paul Celan

(e foi disto que me lembrei a noite passada.)

Eu - Quando vou à discoteca


Sempre gostei de dramatismos. 

Tragédias

O pequeno soldado
Jean-Luc Godard

29/08/14

Mr. Leonard Cohen



O dia em que Leonard Cohen me 
fez rir.

Google Heart

O meu coração agora é por satélite
mas falho de amor visto do espaço.
Por isso rimo tão mal: sou da élite
com o infinito em copos de bagaço.


Renato Filipe Cardoso
2012

Das cuequinhas

Uma rajada de vento levantou o meu vestido de flores e apareceram as minhas cuequinhas cor-de-rosa. Sem qualquer pudor, a menina de quatro anos agarrada à mão da mãe levanta o seu vestido e diz Mamã, tenho umas cuequinhas iguais às daquela senhora, só que as minhas têm um cupcake! Olha, senhora!
A mãe dá-lhe uma palmada e diz que aquilo não se faz na rua, mas eu fico a pensar que preciso de mudar a minha roupa interior: é que as minhas cuequinhas também têm um cupcake. 

Como ouvir rádio


If you only listen with half an ear,
you haven't a quarter of a right to criticize.
Damn. Voting is the same as listening to radio. 

Eu - A descobrir a internet



28/08/14

Retrato de Mónica

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

Eu - Quando vou molhar o pé


Gosto de me sentir
amparada.

Mia Couto e a poesia


Eu pensava que todo o adulto era poeta; bastava que eu crescesse e, automaticamente, era poeta.
(...) eu só pudesse ser quem era através da poesia.

Leonard Cohen e Lorca


25/08/14

Toco tu boca


Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja. 

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. 

Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. 

Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.

Do dia (4)

Acordei cedo e pensei que há muito tempo que não estava doente, mas que agora não precisava porque ando a ter bons miminhos. Andei de autocarro durante uma hora, a pé durante duas, fizémos uma pequena escultura e comi queijo de cabra com rodelas de figos. Alisei o pêlo de um cão e folheei o último livro que o meu pai leu, só que não era do meu pai. Brinquei à mímica e não adivinhei A minha mãe a trabalhar, nem O pinguim que não gostava de frio. Fui brusca e senti-me culpada. Comprei uma agenda branca, fiz duas transferências bancárias e combinei um café. Comi sopa. Repeti. E repeti até acabar. Dei uma trinca numa ameixa podre e veio-me à cabeça que estou com um medo tão grande de começar setembro, que chorei para dentro do copo com água das pedras.

Eu - Quando tenho insónias

Eu - Quando vou à festa


Às vezes, levo o animal de estimação. 

22/08/14

No autocarro

'Só agora apanhei o autocarro, Suzete. Não, não, estive a ler e distraí-me. Não Suzete, a minha vida é mais que ler. Até já.'

(Volta a baixar os olhos para o livro.)

Guaguancó y fado


Estou a sentir os olhares de desaprovação.
Mas gosto tanto...

21/08/14

Eu - Quando copio nos testes


Nós - Quando a minha mãe não nos deixa dar beijinhos na boca




Eu - Quando me perguntam o que quero ser quando for grande


Sempre quis liderar.

Je vous salue, Marie


Nous sommes toujours au début de notre apprentissage de l'amour.
C'est tout.

Eu - Quando me perguntam se pertenço ao KKK


Não.
Sou mais adepta dos vimes. 

Eu - Quando me perguntam se gosto de rendinhas


Só que às vezes tenho que dar um pontinho
ali de lado. 

20/08/14

Eu - Quando me perguntam A menina dança?



Guerra e Paz

"... Não sei dissimular os meus sentimentos. 
Dizendo isto, não cessava de olhar para as jovens com a galanteria audaciosa dos rapazes jeitosos. A gatinha comia-o com os olhos, prestes a desvendar toda a sua natureza felina."

L. Tolstoi, p. 56

Em casa

" 'Mit' é 'com' 
'Mit é com quê?' "

19/08/14

Estudo para Andrómaca

Andrómaca levantou-se e alisou as rugas da saia. Os finos vincos horizontais que se tinham formado durante a tarde começaram a desaparecer no tecido escuro. Abriu a porta que dava para o corredor e falou: as casas que deixamos ardem durante algum tempo à flor da pele e depois tomam-nos de morada a memória. Degrau a degrau.

(estudo para Andrómaca, "As bem-intencionadas")

Almost Like the Blues



Meus amigos,
o homem da minha vida vai lançar o seu novo álbum
a 23 de Setembro.

Juro que hoje ninguém me tira o sorriso da cara!
(e esta é uma das músicas)

That's life


Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race

18/08/14

A obra ao Negro

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias têm de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras vãs; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, à maneira dessas massas inertes que algumas mulheres dão à luz e que, em suma, não são mais do que um sonho da matéria. 

Marguerite Yourcenar

No autocarro

'Oh mãe, qual é o nome próprio 'do' Vieira da Silva?'
'Arpad! Então não leste a placa?'

(Queria comentar, mas não consigo.)

Eu - Quando me perguntam como mantenho o bigodinho tão direito


Eu - A vir de férias

E a dar-me conta do meu bronze.
Estou cor de sino. 

14/08/14

Da robótica

Fiz um comentário num blogue. Pediu-me para provar que não era um robot. Pensei: ora bolas, lá tenho que mentir outra vez.

A gente a dar sempre provas do que não é.

12/08/14

Ao longe, o mar


Porto calmo de abrigo
De um futuro maior

Na televisão

'Eu não escrevo sobre história contemporânea porque quando acabasse de escrever, já estaria desatualizada.'


No restaurante

'A senhora não bebe vinho, pois não?'

Tenho ares de menor. Casta. 
(E por vergonha, disse que não.)

09/08/14

Do dia (3)

Acordei demasiado cedo para a lonjura da noite. Recebi uma mensagem de preocupação e respondi em sobressalto. Comi favas. Descarreguei o telefone, enrelegei os pés na água do mar, forcei a minha cabeça a pensar em quão salgada estava a minha pele, adormeci ao sol, falei inglês, caminhei por uma hora. Comi um figo e tomei banho de mangueira. Lavei a cabeça com head and shoulders para a caspa. Era o champô mais barato do indiano, cheirou-me à minha adolescência. Li durante todo o serão. Cimentei que Dada é Nada e aprendi que âme é alma. Vi um documentário de duas horas sobre aborto ilegal em romeno. Comecei a ler o Guerra e Paz. Tentei dormir, mas a noite passada foi tão longa que parece que o dia não passou.

08/08/14

Saltimbancos

(...) no fundo azul sombra da capela com metade branca do prior a pregar entre um perfume de rosas cera roupa lavada alecrim e tosses e o sol a espreitar pelo coro por detrás de um pano encarnado cor de vinho de magusto com castanhas e avental novo e serenatas pelo rio e amores da aldeia e cheiros da maresia e o frio da barra no peito por cima do coração a tremer no mesmo bote que ele e no mesmo banco que ela e no mesmo lugar que ela que é o lugar dos dois que é o lugar prós dois como o xaile d'ela que chega prós dois (...) 

Saltimbancos, da José de Almada Negreiros a Santa Rita Pintor, 1916

06/08/14

Na praia

'Como se vai chamar a menina?'
'Maria Lusa. Assim se emigrar, nunca se vai esquecer de onde é.'

05/08/14

04/08/14

No café

'Vimos de Lisboa para o Algarve e já nos sentimos emigrantes dentro do próprio país.'

01/08/14

Carta ao pai (3)


Eu teria sido feliz em ter a ti como amigo, como chefe, como tio, como avô, até mesmo (embora já mais hesitante) como sogro. Mas justamente como pai tu foste demasiado forte para mim. (...) eu tive, portanto, de suportar por inteiro e sozinho o primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais.

Carta ao pai, Kafka