31/07/14

Loving her was easier


She's opened every door to my mind.

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

Mia Couto

Na biblioteca

'Habilitações?'
'Licenciatura.'
'Em quê?
'Filosofia.'

Silêncio prolongado.

'Sou licenciada em Filosofia.'
'Eu ouvi, eu ouvi, menina. Mas o que é que ponho? Filósofa?'

Que há-de ser de nós?


Que há-de ser do mais longo beijo 
que nos fez trocar de morada

30/07/14

Eu - Quando me dizem que vão casar e ter filhos antes dos 22 porque não querem perder tempo

E acrescentam que não têm mais nada para fazer com o namorado
por isso é como se fosse brincar às casinhas.
(cito.) 

Carta ao pai (2)


Assim, por exemplo, disseste há algum tempo: “Eu sempre gostei de ti, mesmo que aparentemente eu não tenha te tratado como outros pais costumam tratar seus filhos, justamente porque não sei fingir como eles”. 

Ora, pai, no que diz respeito a mim, jamais cheguei a duvidar de tua bondade para comigo, mas considero esta observação incorrecta. Tu não consegues fingir, é verdade, mas afirmar, apenas por esse motivo, que os outros pais fingem é ou pura mania de mostrar razão a fim de acabar com a discussão ou – e é isso que de facto acontece, na minha opinião – a expressão disfarçada de que as coisas entre nós não estão em ordem e de que tu ajudaste a provocá-las, mas sem culpa.

Se de facto pensas assim, então estamos de acordo.

Carta ao pai, Kafka

Eu - Quando me perguntam se prefiro prata ou ouro

Sou mais de pérolas e peninhas.
 

Eu - Quando vou à piscina

Aconselham uma touquinha
mas não dizem nada quanto a extensões e maquilhagem.

29/07/14

27/07/14

Do dia (2)

Acordei com um despertador novo que dá rádio com som de telefonia. Li na cama antes do pequeno almoço. Bebi leite. Li na cama antes do banho. Aprendi a palavra anexins. Molhei o chão da casa com pegadas. Vi o Forrest Gump. Fui tomar café com o Miguel Ângelo, a Margarida e a Ana Maria. Sentaram-se alemães, russos e romenos na mesa ao lado. Nenhum português no café. Horas de lanchar, a alemãzinha entorna o meu sumo de laranja por cima de mim. Os pais pedem desculpa em francês, mas não me compram outro sumo. Acabam-se os trocos, por isso lancho leitura, que me aborrece de levantar. A minha avó liga-me, Como vai o estudo, filha, vês emprego?, Não avó, e falamos de emigrar, Olha que o teu primo se dá bem lá em Londres, a avó quer o melhor para ti. Desligo de tudo, torno-me Kattrin de Mãe Coragem e percebo que, entre nós, no princípio não era o verbo: era o entendimento que precedia o verbo.

John, I'm only dancing


I saw you watching from the stairs, 
you're everyone that ever cared
Oh lordy, oh lordy, you know I need some loving.

Daddy

Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time——
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal

My Polack friend

Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.

I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You——

Sylvia Plath

26/07/14

Eu - Quando me perguntam se prefiro fato de banho ou bikini


É tudo relativo.
Mas gosto de pézinhos descalços.

Procissão


Eu também
Tô do lado de Jesus
Só que acho que ele
Se esqueceu
De dizer que na Terra
A gente tem
De arranjar um jeitinho
Pra viver

O piano


'I'd like to make a swap.'
'What for?'
'The piano.'

Apanhador de Desperdícios

Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

Manoel de Barros


25/07/14

Ravi Shankar


Eu - Quando adiro à moda das selfies


Adoro estar atualizada.

(Obrigada, Filipinha!)

Na Segurança Social

'Menina, pode trocar de senha comigo?'
'Qual é o seu número?'
'Noventa e sete.'
'Mas o meu número vem depois do seu, o senhor é já a seguir!'
'Menina, estou com uma caganeira do feijão do almoço... Troque comigo depressa!'

(Troquei com o senhor, claro.)

Estrela do Mar


Só a ele obedeço, só ele me conhece,
só ele sabe quem sou
no princípio e no fim.

A Estrela


Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo... Devia-lhe ficar bem, no cabelo.

Vergilio Ferreira, A Estrela
Conto completo, aqui.

23/07/14

Eu - Em modo poker face


Trabalhos em família


Dão badalão
Cabeça de cão
Orelhas de rato
Não tem coração. 

I carry your heart with me



i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you


here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart


i carry your heart(i carry it in my heart)

Negrito meu.

Na faculdade (e aqui entre nós)

'Laura, este problema de Gaza só vem confirmar que os Alemães tinham razão e que o Holocausto se justificou.'

Nós - Quando vamos à praia


Não levamos os bracinhos
E os livros vão entre os dentes. 

22/07/14

Eu - Quando me perguntam o que faria se apanhasse o Governo distraído



Do dia

Acordei, desliguei o despertador, dormi, acordei,

arrastei-me para o banho, fiz uma máquina meio cheia, comi o resto do jantar, encaixotei, encaixotei, encaixotei, li, li, encaixotei outra vez, acabou-se a fita cola, passei-me com tudo e fui passear o resto da tarde.

Encaixotei outra vez e o pó que está no meu quarto faz lembrar puns de pirilampos.

Eu - Quando a leveza é insustentável


Desfiz-me do corpo, essa inutilidade na vida de uma pessoa.
Agora sou só batôn.
E um espelhinho, a ver se pareço mais profunda. 

Dos esconderijos


Parto sem dor


E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos em que dentro
a dor não parte sem dor.

13/07/14

Quatro quistres quigres

Dos olhos

Da última vez que te disse Odeio que roles os olhos, já não odiava, mas só me apercebi no momento.
Um dia destes, ainda me ofereces um hamster e eu vou gostar genuinamente.
(ainda não, ainda não.)

11/07/14

Desejos (2)

Assim, mas para ler.


Desejos

1) Viver de esplanadas solarengas e um montinho de livros onde apoiar o cotovelo.
2) Uma estrutura que segurasse o livro e mudasse as páginas sozinha.

Beija-me (com os olhos fechados)


É uma rã com uma mutação genética
que tem que abrir a boca para ver.

Na rua

Conversa entre dois rapazes:

'Gostava de ter o período.'
'Para quê?'
'Para ter desculpa quando não me apetece ir para a cama com a Susana.'
'Mas ela quer e tu não queres?'
'Depois de vir da Rute, não gosto de misturar cheiros.'

No jardim

Menina vai chorar para o colo da educadora de infância:

'Dona Alice, a menina chamou-me cabra!'
'E tu? Baliste?'

Eu - Quando me dizem que a única aspiração da vida de uma mulher deve ser a ter filhos


Acho que até um rolo de papel higiénico aspira a mais que limpar o rabo, sei lá.
 

João de Barro


Ainda não consegui decidir se gosto ou não.

Eu - Quando vou fazer um piquenique


O mais importante é ter quantidade de vinho suficiente
para apreciarmos a brisa campestre. 

09/07/14

Quarta Metamorfose

Por isso precisara
da metamorfose,
de construir um pêlo fulvo
e rente,
em vez de pano largo
tecido a solidão

Era mais fácil enfrentar o sol
era mais fácil lidar com as estrelas
que haviam construído um ninho
de ternura
e depois desabado
da árvore mais larga
no atónito
de tudo

Era mais fácil
a arte
de ser tigre

Ana Luísa Amaral, A Arte de Ser Tigre

Touts les garçons et les filles


Ils s'en vont amoureux 
sans peur du lendemain

O Costa do Castelo

O amor só se alimenta
com afagos e carinhos:
Ao almoço, três abraços
Ao jantar, quatro beijinhos.

Daqui, claro! E que maravilha!

06/07/14

Cegueiras


Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

Ensaio Sobre a Cegueira, J. Saramago

Les plages d'elle (et les nuits)


Quando Agnès ainda se chamava Arlette, não tinha decidido tirar um curso de fotografia e achava que a literatura, a história de arte e a sociologia podiam funcionar juntas. 
Depois mudou o nome - novo nome, nova identidade - e veio a fotografia numa noite. 

A parte melhor de quando conheci o seu trabalho: não fazia ideia de quem era e gostei logo. 
A minha mãe sempre me apresentou os gigantes fazendo com que eles parecessem acessíveis. Foi levar-me a ver o Les Plages d'Agnès dizendo que íamos ver um filme sobre praias da vida de uma pessoa.

Eu - Quando conheço pessoalmente alguém que conheci primeiro através do seu blog


Levo sempre um chapelinho de penas. Nunca se sabe se vou precisar
de recuar uns séculos - os chapéus são sempre bons
temas de conversa.

Na cafetaria

'Um prato vegetariano come-se com garfo de peixe ou de carne?'

Dos beijinhos


Forget it, Toto.
Feelings can never be understood.

Cinema Paradiso

Eu - Quando vou a Londres


 E se levanta uma brisazinha.

05/07/14

Dos Ovos


Ainda te lembras de fazermos ovos à século vinti-um?
Nessa altura, arrancava as missangas dos quadros do Xanalámingalápingalásinga para ver 
se a minha saliva as voltava a colar
E marcava livros com restos de balões do meu aniversário.

Mas isso era quando as nossas gargalhadas eram orquestras.

Na canoa

Criança de dez anos grita da sua canoa:

'Laura, porque é que remas tão depressa?'
'Para ficar mais longe do barulho das pessoas que estão atrás de nós.'
'Se eu ficar caladinha, posso estar ao teu lado?'
'Podes...'

Chegadas ao destino, o pai pergunta-lhe:

'Gostaste, filha?'
'Gostei! Agora somos amigas e nem precisei de fazer brincadeiras aborrecidas para a Laura gostar de mim!'

(Sobre a necessidade de solidão e silêncio, este curto texto.)

Meias Verdades


Eu - No quentinho


03/07/14

À entrada


A última refeição no gueto

Mãe, devias comer.

Não, não, é para vocês.

Fatia de pão, meia batata,
A mãe nega-as,
Divide-as irmamente entre nós,
As crianças.

(...)

Ela vira-se, vê as nossas caras
    A comida que não foi tocada.
       Crianças, comam, comam.
           Lembrem-se da nossa última refeição juntos.
Amanhã. Amanhã...

Seis anos depois, não consigo comer batatas
Sem me saberem a lágrimas.

Poema original aqui.
Tradução do excerto por mim.

Antz, a formiga Z


Este foi o meu primeiro contacto com o Woody Allen. 
Aqui está o monólogo inicial (não está legendado, é em inglês).

School report


Assim, sim, bom comportamento e sem atrasos!
(clicar na imagem para ver maior)

Eu - Quando me dizem que não devo fazer uma oral de calções



Conservadores.
Devem preferir touquinha.

01/07/14

Querida Angélica

querida angélica não pude ir fiquei presa
no elevador entre o décimo e o nono andar e até
que o zelador se desse conta já eram dez e meia

querida angélica não pude ir tive um pequeno
acidente doméstico meu cabelo se enganchou dentro
da lavadora na verdade está preso até agora estou
ditando este e-mail para minha vizinha

querida angélica não pude ir meu cachorro
morreu e depois ressuscitou e subiu aos céus
passei a tarde envolvida com os bombeiros
e as escadas magírus

querida angélica não pude ir perdi meu cartão
do banco num caixa automático fui reclamar
para o guarda que na verdade era assaltante
me roubou a bolsa e com o choque tive amnésia

querida angélica não pude ir meu chefe me ligou
na última hora disse que ia para o havaí
de motocicleta e eu tive que ir para o trabalho
de biquíni portanto me resfriei

querida angélica não pude ir estou num
cybercafé às margens do orinoco fui sequestrada
por um grupo terrorista por favor deposite
dez mil dólares na conta 11308-0 do citibank
agência valparaíso obrigada pago quando voltar

Angélica Freitas

(Gosto mesmo muito dela!)

Eu - À espera que o ardina comece a distribuir livros


Versos

Diderot tinha-me prevenido 
Não leia versos
Os versos podem ser perigosos como o fogo 
Leia romances policiais.

Adília Lopes

Lembra-me um sonho lindo



Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso