29/06/14

Edelweiss


Ode ao simples.

Every morning you greet me
You look happy to meet me.

Mulatez


Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências.

Mia Couto, Vozes Anoitecidas

Eu - A preparar-me para mais uma semana


Sempre gostei de esp(arti)elhos.

Eu - Quando me perguntam se acho que a lógica de partidos políticos funciona


Já oiço por aí que sou anarquista.
Vai, não vai, e ainda me dizem que a fardinha não me fica bem.

Calúnias.

Eu - Quando penso que para o mês que vem vou voltar a...

...isto. E não podia estar mais entusiasmada!


28/06/14

Meu bem, meu mal


Paixão e Carnaval.

Gherardo Perini

Se eu tivesse um filho, ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara antes de existir. Assim também as estátuas que faço são diferentes daquelas que comecei por sonhar. Mas Deus permite-se ser conscientemente criador.

Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-me porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore como se a verdade se encontrasse no coração das pedras, e espalhei as cores para pintar muralhas como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio. 

Tudo se cala, sabes, até a nossa alma — ou então somos nós que não ouvimos. 

Assim, tu partes. Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios.

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.

Marguerite Yourcenar, Gherardo Perini in O tempo esse grande escultor

(Se tivesse que eleger um livro, seria este. E se tivesse que jantar com alguém já morto, escolheria a Yourcenar num piscar de olhos.)

Les Marionnettes


Chez nous à chaque instant c'est jour de fête.

Eu - Quando me começa a nascer um dentinho de siso



Das Varizes (2)

Nunca dei um jantar.

Mas já comecei a receber flores em vez de prendas.
Um dia, vão oferecer-me garrafas de vinho.
Suponho que o meu cérebro se esteja a transformar numa variz gigante.

26/06/14

À professora Cristina Beckert

Assisti às suas aulas na licenciatura, na FLUL.
Ouvi-a falar sobre ética ambiental com uma paixão enorme, que não esquecerei e que me influencia nas minhas tomadas de posição.

Soube através do blogue do Domingos que havia falecido esta manhã.
Que tristeza, professora!


Dos pêlos

Usei calções com pêlos nas pernas. Não me apeteceu o ritual espuma depila espuma depila espuma depila, tchhhh, água para tirar tudo passa creme duas vezes que arde e agora sim podes sair à rua.

Não é sequer uma declaração feminista. É que estava calor e o calor traz preguiça.

As minhas colegas acharam que o psiquiatra me devia mudar a medicação.

Why don't you do right



22/06/14

22/22 - Parabéns para mim


21/22 - O floreado


É perigoso viver desarmado
na lucidez das horas.
Quando menos se espera, morre-se!

Lídia Borges

20/22 - O Homem Duplicado


O Homem Duplicado, baseado no livro de José Saramago
2014

19/22 - Twin Peaks


18/22 - Troca de Sorrisos


(Ao minuto 0.15, a cumplicidade.)

17/22 - Nós connosco


O isolamento não é a solidão. Na solidão, nunca estamos sozinhos connosco próprios.
Na solidão, nós somos sempre dois em um, e tornamo-nos um, um indivíduo completo, com a riqueza e limites das suas características.

Este é um excerto do filme Nous sommes tous encore ici, realizado por Anne-Marie Miéville, amante de Jean-Luc Godard - que declama um excerto da obra As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt. Em particular, este monólogo é sobre tirania, isolamento e liberdade.

Vale muito a pena ver até ao fim. 

16/22 - Este seu olhar

Este seu olhar quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar, é pensar que você
Gosta de mim como eu de você

Tom Jobim

15/22 - Só tinha que ser com você

É,
Só eu sei
Quanto amor
Eu guardei
Sem saber
Que era só
Pra você.

Elis Regina

14/22 - Doppelgänger

13/22 - O Cavaleiro, a Morte e o Diabo


'Procuramos em vão descobrir uma só raiz que tenha dado troncos vigoroso, uma leira de terra fértil e sadia, mas por toda a parte encontramos apenas areia, torpor, inanição.

Numa situação destas, um homem que se sinta desesperadamente solitário não poderia escolher melhor símbolo que o Cavaleiro, a Morte e o Diabo:

o cavaleiro coberto com a sua armadura de olhar duro mas tranquilo que só com o seu cavalo e o seu cão vai percorrendo impassivelmente o seu caminho fantástico, indiferente aos seus companheiros horríveis mas igualmente sem esperança.

O nosso Schopenhauer foi esse cavaleiro de Durer: não tinha esperança alguma mas preferia a verdade. Esse homem não tem par.'

A Origem da Tragédia,
F. Nietzsche

12/22 - Corto


11/22 - Eu - Quando me encontro noutra pessoa

Só me encontro a cores. Abro uma excepção para mim própria.
Mais, aqui.


10/22 - Eu - Menina má, menina boa


9/22 - Merce Cunningham


8/22 - Olhos negros


Quase que nasci nos Açores. 
Gosto muito de folclore e música tradicional.
Esta música é açoriana e está extraordinariamente cantada pela Teresa Salgueiro, acompanhada por um grupo coral de Ponta Delgada.

Para mim, é imprescindível ouvi-la com frequência. Espero que para ti também passe a ser.

A letra está aqui.

7/22 - Duplicidade

du.pli.ci.da.de

1. estado do que é duplo
2. [figurado] Dobrez, falsidade
3. dobreza, malabarismo, doblez, doble, redobre, dobre.

6/22 - Vintidois and counting


É a Ana Vidigal. 
Aqui, bem como aqui.

5/22 - Sai de Baixo


4/22 - Monges Copistas

Monge Copista.
Que ia de casa em casa, recolhendo pedaços de pano para a confecção de papel
e livros. Que copiava livros, na época medieval, como forma de penitência.

3/22 - Orlando


Que bonito.

2/22 - Ver por dentro

Reinado de Carlos V, Rei de França.

1/22 - The years, the years between us


(Ouvir à medida que se lê.)

Dearest,

I feel certain I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. 

You have given me the greatest possible happiness. 

You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. 

I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. 

You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. 

I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.

I don't think two people could have been happier than we have been.

Virginia Woolf (nota de suicídio)

0/22 - A explicação

Vinte e dois.
11 e 11, 22.
XXII.



Mais feliz que hoje, só quando tiver 222 anos.


22 posts a todos os 22 minutos até às 22.22h.

A sua linha guia é o facto de todos terem ou fazerem lembrar
alguma coisa que se desdobra, 
que se duplica,
que se imita.

(É só clicar no tag para ter acesso a todos.)

When I 'm feeling sad, 
I simply remember my favorite things
And then I don't feel so bad.

20/06/14

Da (descoberta da) Leitura

Não se deve intervir, não nos devemos meter nos problemas que cada um tem com a leitura. Não devemos sofrer por causa das crianças que não lêem, perder a paciência. Trata-se da descoberta do continente da leitura. Ninguém deve encorajar nem incitar outra pessoa a ir ver como ele é. Já existe excessiva informação no mundo acerca da cultura. Devemos partir sós para esse continente. Descobri-lo sozinhos. Operarmos sozinhos esse nascimento.

Por exemplo, em relação a Baudelaire, devemos ser os primeiros a descobrir o seu esplendor. E somos os primeiros. E, se não formos os primeiros, nunca seremos leitores de Baudelaire. Todas as obras-primas do mundo deveriam ser encontradas pelas crianças nos despejos públicos, e lidas às escondidas dos pais e dos mestres.


Por vezes, o facto de se ver alguém a ler um livro no metro, com grande atenção, pode provocar a compra desse livro. Mas não quanto aos romances populares. Aí, ninguém se engana quanto à natureza do livro. Os dois géneros nunca estão juntos nas mesmas mãos. Os romances populares são impressos em milhões de exemplares. Com a mesma grelha aplicada, em princípio, há uns cinquenta anos, os romances populares desempenham a sua função de identificação sentimental ou erótica. Depois de os terem lido, as pessoas abandonam-nos nos bancos públicos, no metro, e serão apanhados por outras pessoas e novamente lidos. 

Isso será ler? Sim, penso que sim, é ler como se toma um remédio, mas é ler, é ir buscar a leitura ao exterior de si próprio e ingeri-la e fazê-la sua e dormir e cair no sono para, no dia seguinte, ir trabalhar, juntar-se a milhões de outras pessoas, a solidão matricular, o esmagamento.

Marguerite Duras, Mundo Exterior

18/06/14

Eu - À espera que o que tenho para fazer apareça feito



Camarões

Quando vimos que Portugal tinha perdido o jogo da bola, decidimos que haveríamos de torcer por outra seleção. Consenso imediato: Camarões, que afinal já perdeu contra o México.
Parece que hoje há conquilhas para o jantar.

15/06/14

No autocarro

No banco ao lado do meu, dorme uma rapariga ruiva. O senhor do outro lado diz  em voz alta: 

'Estes ruivos acham que podem dormir em qualquer lado!'

A náusea


É menos profundo do que se possa pensar.
Vou fazer uma viagem de autocarro.


14/06/14

Eu - A ver a luz do sol após uma semana de reclusão

Até parece mentira que existem mais ruas além daquela que liga a minha casa à universidade.

Dos cereais

Uma manhã destas, abri o pacote de Estrelitas. Afinal não são só pequenas estrelas-bombas-calóricas-de-pequeno-amoço. Não. Agora vêm em versão as-luas-também-te-fazem-feliz.
Achei mal. 
Na minha taça de estrelitas, só luas novas. 

(Lá por entre as luas e as estrelas, veio um pelicano de plástico de apoio ao mundial, em que lhe sopramos pelo rabo e ele dá um gritinho sofrido. Suponho que os realizadores de pornografia asiática estejam a precisar de inspiração.)

13/06/14

Eu - A adotar mecanismos para não derreter


Minas Gerais

a pia pinga
até a medula a pia pinga

galo canta a pia pinga
noite e dia pinga pinga

você cresceu você casou
houve um golpe militar

a pia pinga e o menino
da esquina virou padre

a pia pinga

a pia pinga toda
a caixa d'água

Angélica Freitas

(Gosto tanto, tanto, tanto de ler em voz alta. Ora experimenta lá.)

12/06/14

Sonhos

Quando me disseram Segue os teus sonhos, espero que tenham posto uns trocos de lado para me sustentarem enquanto os sigo.

(Não sei quantas vezes já li isto.)

Mãos

Criança passa pela janela do meu quarto, onde tenho um modelo de mão:

'Oh mãe, olha ali uma mão!'
'Não é uma mão, é um bocado de madeira.'


Eu - Quando me perguntam qual é a minha rotina matinal

Ou: O que faço quando a esquerda não está a ver.

09/06/14

Eu - Quando me perguntam se se pode ser feminista de direita


O meu amor


E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

Eu sou sua menina, viu?

Mad Kubrick



Das árvores

Tenho a sorte de saber nomes de árvores e de fósseis. É que a minha mãe me pergunta sempre sabes o que é isto?, adivinhando um não e respondendo é uma espécie endémica, chama-se assim, repara no recorte das folhas, vê lá os veios, é nos pormenores que se vê quem sabe ou não, sente-a para não te esqueceres.

Em conversa, dizia a um colega no outro dia olha já reparaste que a árvore tal está tão bonita? Recebi de resposta um qual árvore, despreocupado.
Olha, mãe, ainda não me esqueci de reparar nos detalhes.

(Estava à tua espera, meu amigo.)

08/06/14

No café

'Quando eu for velho, vou ser rico, mas não vou ter corpinho para andar por aí.'
'A minha avó tem mais de sessenta anos e está ótima!'
'Com sessenta vou estar apagado. Depois dos trinta e poucos, a velhice começa a bater.'

No café

'Às vezes acho que já senti tudo o que é possível sentir. No futuro, vou sentir só variantes disto tudo que um dia foi a primeira vez.'

Mr. Sandman


Mr. Sandman, 
bring us a dream

Os outros - Quando eu lhes digo que estou feliz


Adeus às armas

"It’s raining hard.”
”And you’ll always love me, won’t you?”
”Yes.”
”And the rain won’t make any difference?”
”No.”
”That’s good. Because I’m afraid of the rain.”
”Why?” I was sleepy. Outside the rain was falling steadily.
”I don’t know, darling. I’ve always been afraid of the rain.”
”I like it.”
”I like to walk in it. But it’s very hard on loving.”
”I’ll love you always.”

Hemingway

07/06/14

Na festa

(Cumprimento desconhecido)
'olá, sou a Laura.'
'olá, eu conheço-te!'
'de onde?'
'das aulas. Estás sentada à minha frente, temos aula à segunda. Usas o perfume da minha mãe.'


Liv - Quando se aperceber que aprendi sueco por sua causa

Querida Liv Ullman, salvaste-me o primeiro ano de faculdade.

RrRacismo

Trabalho sobre racismo e apercebo-me que escrevo sempre a palavra com maiúscula.
Começo a pensar que lhe dou tanto valor como à palavra Homem: nenhum.

Da boa dança no bom cinema


Les Uns et les Autres, Claude Lelouch 
(1981)

06/06/14

Eu - Quando termino de ler um excelente livro

(Parece que me faço amiga deles. O seu mal é terminarem.)

Boogie Woogie



Toot toot toot-diddelyada, Toot-diddelyada, toot-toot

Estar só

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo.

António Ramos Rosa, Poemas Inéditos

(É tão bom abrir um livro à toa e dar de caras connosco.)

04/06/14

Bate, coração

(Como era, vim
como vim, fui.)

Bate, cura, sara
meu coração
Bate, que te quero são.

O que lá vai, lá vai.

Eu - Pronta para ir caçar elefantes com a Realeza

(E tenho malinha, para guardar o marfim)


Dança


Vem pr'a dançar
que o tempo pára
E não há nada além da nossa dança.

Eu - Quando leio plágios publicados


Eu - A experimentar vestidinhos de Verão


Das mãos

Acabo de pôr um modelo de mão de madeira à janela do quarto, como quem diz adeus para a rua.
O silêncio também precisa de cumprimentos.