24/05/14

Carta ao Pai


Querido pai,

Tu perguntaste-me recentemente por que afirmo ter medo de ti. 

Eu não soube, como de costume, o que te responder; em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes que justificam esse medo, que eu não poderia reuni-los de modo mais ou menos coerente.

Para ti as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhaste muito durante a tua vida inteira, sacrificaste tudo pelos teus filhos, e sobretudo por mim, enquanto eu “vivi numa boa”; 

Por causa disso, gozei de toda a liberdade para estudar o que bem quisesse, não precisei de ter nenhuma preocupação com o meu sustento e, portanto, nenhuma preocupação, fosse qual fosse; não exigiste gratidão em troca disso, tu conheces “a gratidão de teus filhos”, mas pelo menos um pouco de boa vontade, algum sinal de simpatia; em vez disso eu sempre me encafuei no meu quarto, com os meus livros.

Jamais fui ao teu encontro. Jamais te visitei.

Se resumires o teu veredicto a meu respeito, darás conta de que não me acusas de nada indecoroso ou mau, mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E tu acusas-me de tal modo, como se fosse culpa minha, como se eu pudesse, com uma guinada no volante, por exemplo, conduzir tudo para outra direcção, ao passo que tu não tens a menor culpa a não ser, talvez, pelo facto de teres sido demasiado bom para comigo.

Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

F. Kafka, Carta ao Pai (excertos escolhidos por mim)

10 comentários:

{anita} disse...

Hoje estive com esse livro na mão...

Laura disse...

Só o leio na casa dos outros ou em livrarias e vou anotando os excertos.
Tenho medo de o comprar...

Júlia disse...

É pequeno, cru, amargo, intenso. Tenho-o.

Paulo Alexandre Luís Botelho Moniz disse...

Não tenhas medo de ter medo. E já o podes comprar sim, sem medos. E lê-lo quando te apetecer, sem medo dos medos. Sei que agora já o consegues. O medo tem medo que um dia, deixemos de o temer. Este dia para ti, tenho a çerteza, também já chegou. Agora até tenho pena do medo que o teu medo há de ter por já não teres mais medo dele. Uma Santa Noite em Paz. Paiolo.

Laura disse...

Júlia, o seu tamanho é vital para o efeito que tem :)

Laura disse...

Meu querido, as tuas palavras abrem-me sempre caminhos. Apesar disso, o medo não será do livro: será sempre nas memórias que se querem enterradas.

{anita} disse...

5 estrelas para a mensagem do Paulo

Paulo Alexandre Luís Botelho Moniz disse...

Quanto faças, supremamente faze.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.

Ricardo Reis, in "Odes"

Laura disse...

5 estrelas para o Paulo em qualquer circunstância! :')

Laura disse...

Peloooooft! :D