23/04/14

Quando A Noite é eterna memória

Entrava calmamente no ano de 2004, desapossada de preocupações com exames – que naquela altura só havia testes e o segundo período era a altura de começar tudo de novo – quando apareceu A Noite (Texto Editores, 2012) por entre os livros presenteados.
Vivia na terra de Antero, de Natália e de Teófilo; por isso, seria de esperar que me corresse no sangue a literatura e um certo bafejo de erudição. Mas se esta influência foi real, não foi suficiente para o que aí vinha.
A Noite é sobre o holocausto, como outras centenas de livros. E é sobre o caminho que uma criança faz com o seu pai desde o momento em que é levada para o campo de concentração até aos tempos em que lá passa. Assim, linguagem simples, escrita fluida, nem uma centena de páginas escritas, episódios da vida relatados como quem conta uma história antes de dormir. Mas não. Não se pense que se vai preparado para o ribombar eterno, em cadeia, crescente, que a cada momento se instala mais no limite.
Quando volvemos a próxima página, supomos que já nada mais pode acontecer a Elie, o autor e Prémio Nobel da Paz, outrora criança vítima de uma morte que ameaça a cada chicotada, mas que nunca chega. Miúdo e judeu, condições inevitáveis para a crença, Elie deixa de acreditar em Deus. Mas não cresceu, continua a ser catraio e tem no pénis a marca eterna do Criador.
O tratado sobre a dor, a morte, a revolta, a descrença e a “descriança”, muito para além de uma denúncia de violação dos direitos humanos. Nem o Diário de Anne Frank (Livros do Brasil, 2013), nem O Rapaz do Pijama às Riscas (Asa, 2008), nem O Homem em Busca de Sentido (Lua de Papel, 2012), nem Clara (Asa, 2010), nem Alice (Matéria Prima, 2012) ultrapassam o insuportável como esta narrativa.
Só serve de termo de comparação o cortante Se Isto é um Homem? (D. Quixote, 2010). Mas, apesar de aterrador, as vivências de uma criança serão para sempre a noite na memória do adulto em que se tornou.
Publicado originalmente aqui.

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