30/04/14

Denúncias


Tirado daqui.

Livros

'Já disse à minha mãe que quero ser escritora.'
'E ela?'
'Disse para começar um blogue, que já ninguém lê livros.'

Faculdades

'Acho que não vai querer ficar comigo.'
'Porquê? Eu acho que ele gosta de ti...'
'Porque desde que estou com ele, perdi as minhas faculdades mentais.'

29/04/14

Das misturas

A gema funciona bem quando está pegadinha à clara. Mas no momento em que a furamos e o laranja se apodera do transparente, a identidade da gema já não é o que era.

Bibliotecas #1

Cincinnati's old library. Demolida em 1955.

28/04/14

Soneto do Amor e da Morte


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura

Abril

Este 25, não vi o Capitães de Abril - era preciso fugir da segurança do gesto.

23/04/14

Quando A Noite é eterna memória

Entrava calmamente no ano de 2004, desapossada de preocupações com exames – que naquela altura só havia testes e o segundo período era a altura de começar tudo de novo – quando apareceu A Noite (Texto Editores, 2012) por entre os livros presenteados.
Vivia na terra de Antero, de Natália e de Teófilo; por isso, seria de esperar que me corresse no sangue a literatura e um certo bafejo de erudição. Mas se esta influência foi real, não foi suficiente para o que aí vinha.
A Noite é sobre o holocausto, como outras centenas de livros. E é sobre o caminho que uma criança faz com o seu pai desde o momento em que é levada para o campo de concentração até aos tempos em que lá passa. Assim, linguagem simples, escrita fluida, nem uma centena de páginas escritas, episódios da vida relatados como quem conta uma história antes de dormir. Mas não. Não se pense que se vai preparado para o ribombar eterno, em cadeia, crescente, que a cada momento se instala mais no limite.
Quando volvemos a próxima página, supomos que já nada mais pode acontecer a Elie, o autor e Prémio Nobel da Paz, outrora criança vítima de uma morte que ameaça a cada chicotada, mas que nunca chega. Miúdo e judeu, condições inevitáveis para a crença, Elie deixa de acreditar em Deus. Mas não cresceu, continua a ser catraio e tem no pénis a marca eterna do Criador.
O tratado sobre a dor, a morte, a revolta, a descrença e a “descriança”, muito para além de uma denúncia de violação dos direitos humanos. Nem o Diário de Anne Frank (Livros do Brasil, 2013), nem O Rapaz do Pijama às Riscas (Asa, 2008), nem O Homem em Busca de Sentido (Lua de Papel, 2012), nem Clara (Asa, 2010), nem Alice (Matéria Prima, 2012) ultrapassam o insuportável como esta narrativa.
Só serve de termo de comparação o cortante Se Isto é um Homem? (D. Quixote, 2010). Mas, apesar de aterrador, as vivências de uma criança serão para sempre a noite na memória do adulto em que se tornou.
Publicado originalmente aqui.

O gang

Call 911, it's the lobster squad!

A ele, são lagostas. A mim, é mais o gang das emoções.

Staples


Really I don't like human nature unless is all candied over with art.
V. Woolf

22/04/14

Francês

'Professora, o que quer dizer 'cher'?'
'Caro.'
'Ah! Pensei que fosse uma pessoa!'

Em rede

No século XIII, os cabalistas hebreus construíam uma cosmogonia que tinha como base o Ein-Sof. Não era mais que o ser primordial, não nomeado, o nada primordial, o deus que precede a sua própria manifestação, do qual tudo emana e a partir do qual tudo faz sentido.

Deste nada primordial, emana uma 'seiva' que percorre a 'árvore' que constitui e produz a estrutura do universo. Tudo começa nela e tudo passa por ela para se dar, para ser. 

Antes de saber isto, já pensava que as coisas tinham todas uma determinada ordem. Quase como reza,  adotei o 'sempre chegamos onde nos esperam' e acredito nisto. Talvez seja por essa razão que me agradam as pessoas que têm motivos por trás daquilo que criam. Mesmo que, aparentemente aleatório, essa coisa passou pela 'árvore' e vai dar os seus frutos. 

Os frutos que só são comestíveis em rede. 

(Tenho um grande crush por filosofia oriental.)

Coisas que se ouvem na faculdade #1

'Quando falamos d'O Processo, de Kafka...'
(em surdina, na carteira atrás de mim, para a amiga) 'Mas Kafka foi preso?'

Desapegos

Já suspeitava do meu rápido apego emocional às pessoas. O que não esperava de mim própria era um desapego tão repentino.

É tão estranho como engordar ser igualmente fácil a emagrecer.

Nunca se espera e raramente acontece.

20/04/14

No comboio

'A menina está no lugar certo?'
Ainda não, senhora, ainda não, mas prometo que vou lá chegar.

19/04/14

Ilusões

Enquanto a cabeleireira cortava mais de metade do meu cabelo de uma só vez, senti que finalmente estava a ter um pescoço mesmo bom para bronzear. Ou para receber beijinhos.

Utopias de uma mulher de cabelo curto.



18/04/14

Vizinhos (2)

O meu vizinho de cima grita com a mulher muitas noites por semana.

Enquanto escrevo um trabalho que vai acabar no lixo do professor quando acabar o ano tenho que entregar na terça, oiço do andar dos violentos domésticos esta maravilha. Afinal ele tem razões para lhe gritar: está a incutir-lhe espírito revolucionário.
A Bem da Nação.




O toque

Desde miúda que gosto da espessura do papel, das mensagens, do cheiro, das notas por trás das fotografias antigas. Quando vou a feiras, fico sempre com pena, e depois com vontade de comprar, aqueles álbuns de fotografias de família.

Sempre me perguntei por que os venderiam assim; é que as memórias têm espessura, mensagens e cheiro.


Rua de Silves: sempre achei piada a este carimbo, porque a minha família
é desta zona do Algarve.


17/04/14

Vizinhos

Podia ir pedir ao vizinho para parar de martelar a parede da sua casa.
Mas dei-me conta que também me ouve cantar às tantas da manhã. E eu nem sequer sou compassada.

16/04/14

Naquele tempo... #1

A minha avó é a mais nova de cinco irmãos rapazes. Nasceu depois do tempo, 'a ver se calhava menina'. Calhou e ficou Maria de Fátima - a paga da promessa à Virgem, porque nas suas mãos esteve a escolha do sexo. 

Menina de nariz empinado, fazia o que lhe apetecia. Um dia, um dos irmãos vai apanhar caranguejos e a Maria decide assustar uma velhota pobre, que era alimentada pela minha bisavó. A partida foi tão bem pregada, que a sua autora só veio a ser descoberta 20 anos depois. 



Desculpem lá por este wondershare durante o vídeo todo. Preciso urgentemente de um editor de vídeo como deve ser.

O início

'Vá, cria lá um blogue, que eu mando!'

Sou uma menina muito obediente.