12/12/14

Como é ser um morcego?

Se há hipóteses engraçadas na filosofia, elas estão quase todas dentro da filosofia política (cof cof!) e da filosofia da mente. Este artigo é um dos que valem a pena.

Alguém cantando


Absolutamente divino.

10/12/14

Pernas abertas, costas curvas, dedos hirtos

as jogadas faziam com que os berlindes
traçassem carreiros de pelinhos eriçados
na alcatifa.

a cada lance, eu decidia se queria alçar a perna
para o outro lado da varanda

ou se continuava
sentada
a jogar ao berlinde.

Do dia (18)

Hoje, organizei um arquivo de imagens. Recortei meninas nuas, comprei uma revista sobre a Yourcenar e dei a ler a primeira coisa que escrevi para a tese. Poucas vezes tive tanto receio de receber um mau comentário. Comprei uma prenda de Natal, li Nietzsche, mas não resisti à Yourcenar e foi com ela na memória que tomei apontamentos. Bebi três cafés. E um bocadinho de outro. Desejei estar sozinha e é como estou. Fiquei a cheirar a tabaco e estreei uns sapatos que me lembram a Virgínia Woolf. Doeram-me os pés, mas não me queixei: a dor é um fantasma que cobre o silêncio.

09/12/14

Tigresa


Com alguns homens foi feliz,
Com outros foi mulher. 
Mas ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis,
Inventando um lugar. 

08/12/14

The super-animal

The beast in us wants to be lied to; morality is a white lie, to keep it from tearing us apart. 

F. Nietzsche, Human, all too human, pt.1, Wordsworth editions, p.40. 

07/12/14

Goethe fala aos jovens

Goethe disse: 'aos meus amigos, os jovens poetas, digo: na verdade, já não tendes nenhuma espécie de norma. Vós mesmos tereis que a fazer: a cada novo poema perguntei se ele contém algo que tenha sido vivido e se essa vivência vos fez avançar. 

Passar o tempo a lamentar a amada perdida, levada pela distância, pela infidelidade, pela morte, isso não será avançar! Isso não vale nada, por maior engenho e talento que empenheis. Atende-vos ao curso da vida e verificai de vez em quando se o momento que passa mostra que ainda estais vivos'. 

A nós, interessa viver. Criar percursos postiços onde todos os estímulos (...) sejam vividos por dentro por cada um que os percorra. 

(...)

Misturar o público na acção; abolir o público, abolir a ordem exterior, a memória, o modelo. Procurar o con-tacto da pele, o cheiro, o gosto: deixar essa língua falar, só essa, enredada noutras. 

Alberto Pimenta, Acerca da poética ainda possível in A Ideia Anartista, p. 7-10, Lisboa, Outubro 1983. 

05/12/14

No metro

Estou sentada à espera do comboio. Ao meu lado está uma adolescente muito inquieta. Pergunto: 
- Desculpa, precisas de alguma coisa? 
- Olha...tens pensos higiénicos? 
- Não, mas tenho tampões... 
- Ah, isso não. Vou ser virgem até ao casamento.  

04/12/14

Menina Bonita


Oh!, Oh!

Carta ao Pai (14)

Está em causa, não a verdade dos fantasmas, mas a sua potência de dominação.

J. Bragança de Miranda, Posfácio de O Único e a Sua Propriedade, P. 306

Coup de Dès

Um lance de dados jamais abolirá o acaso.
Todo o pensamento produz um Lance de Dados.

Mallarmé

Vale muito a pena ler o poema completo e explorar mais sobre ele.

Stirner (4)

Um dia destes
acendo uma velinha.

Congenital defect of philosophers

All philosophers suffer from the same defect, in that they start with present-day man and think they can arrive at their goal by analysing him.

Nietzsche, Human All Too Human, Pt.1, trad. Helen Zimmer and Paul V. Cohn, Wordsworth Editions, p.12.

O Passarinho e o Cigarro


03/12/14

Os eus dos outros

Em quantos roubos, de toda a espécie, não tive eu de consentir ao longo da história do mundo, concedendo o sol, a lua, estrelas, gato, crocodilos, a honra de passarem por eu; depois veio Jeová, Alá  e Nosso Senhor e ofereci-lhes também o presente do eu (...) e veio o Estado, a Igreja, com a pretensão de serem eus, e eu deixei-me ficar calmamente a olhar. Não admira que aparecesse sempre um eu real para me dizer na cara que não era o meu tu, mas o meu próprio eu.

E assim fui vendo sempre o meu Eu acima de mim e fora de mim, sem nunca conseguir chegar verdadeiramente a mim..

Stirner, O Único (...), p. 178.

02/12/14

28/11/14

Do dia (17)

Hoje, não acordei totalmente. Dormi mal, comi pouco, não fiz exercício. Li Stirner. Fiz um teste de francês. A minha composição foi, obrigatoriamente, como me via daqui a 20 anos. Disse que me via como uma princesa num castelo. Li Stirner. A minha melhor amiga defendeu a sua tese de mestrado e eu chorei quando soube que tinha sido fabulosa. Fiz o post mais verdadeiro desde que comecei este blog. Li Stirner. Bebi coca-cola. Vi a via láctea pintada e o sol também. Tirei uma fotografia a um menino que ganhou um concurso de escrita. Ouvi um homem dizer que me punha a piça no cu. Pensei escrever um texto revoltado no facebook. Mas, em vez disso, li Stirner.

O amor (pode tomar formas estranhas)



Balthus, 1938

Nem uma letra da lei se perderá*

Diz-se que a 'natureza da coisa' e o 'conceito de relação' é que me devem guiar no tratamento da coisa e na instituição da relação. Como se existisse, em si, um conceito da coisa, e não o conceito que fazemos da coisa! Como se uma relação em que entramos não devesse a sua especificidade apenas à daqueles que nela entram! Como se tudo dependesse do modo como outros a classificam! (...)

O que deve ser determinante em tudo, diz-se, são os conceitos; são eles que regulamentam a vida, são eles que dominam. (...) Tudo se torna uma ladainha de conceitos, e o homem concreto, eu, é obrigado a viver segundo essas leis conceptuais.

Poderá haver mais dura tirania da lei?

*Mateus 5, 17-18

Stirner, O Único e a Sua Propriedade, p. 81

(Este livro é uma maravilha. Uma verdadeira maravilha.)

27/11/14

Das correntes

Escuta a corrente
que te diz uma coisa.

Morre nesta margem.
Nasce em mim
como os rios no mar.

Jalaluddin Rumi (1207-1273)

26/11/14

Relações Escaldantes


Nem soutiens. 

No Francês

Professora: Laura, tu as un très bon vocabulaire!
Eu: Gracias! I mean, thank you! Ahm, je ne me souviens pas... obrrigádá?
Professora: ... On va continuer la clase.

No autocarro

'Eu falo muito. Gosto de falar! Não sou um bicho. Falo pelo marido e pela filha, digo muitas coisas, ai não gosto nada de ficar calada, falar é que é bom, expressar o que se sente, não falo dos outros, falo de mim, não é bom falar de mim, adeus Marcelina, que nasça bem o bebé, perfeitinho. Onde é que eu ia? Ah, a dizer que gosto de falar.' 

(Ajudem-me.)

John F. Kennedy


25/11/14

Eu - Quando trabalho como deve ser


Kimono Fibonacci


Este padrão, como a maioria dos padrões de kimono, era criado a partir de um molde feito em madeira de amoreira.
A ideia era reflectir a sequência de Fibonacci presente na natureza, num kimono.
Trata-se de uma peça muito rara, datada entre 1880-1890.

Stirner (3)

Por isso todos se sentem nas suas sete quintas quando zelosamente lhes são prestadas honras. Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e miséria. E acham que o povo quer saber disso? O 'povo' floresce com o estrume dos seus cadáveres! Os indivíduos morreram 'pela grande causa do povo', o povo despede-se deles com umas palavras de agradecimento e... tira daí proveito.

É o que se chama um povo rentável.

Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, trad. João Barrento, Março 2014, Antígona, p. 10

23/11/14

Comunicações


Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Dos nós

que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma inda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,

um nó de sangue da garganta,
um nó apenas duro.

Herberto Helder, A morte sem mestre, Porto Editora, Maio 2014, p. 9 e 10.

22/11/14

Do dia (16)

Hoje, tamborilei os dedos por cima da sua saia. Pude sentir tecido de rede, mas não era ali mesmo. Por baixo da sua pele, as suas veias em rede; depois a pele, células em rede, depois as meias de rede, o tecido da saia tecido em rede, a minha mão a tamborilar e os meus dedos com pele com células em rede e depois a minha pele; e dentro da minha pele, as minhas próprias veias em rede. 
Pensei que deve ser triste morrer: uma exposição gradual das redes sem ninguém para tamborilar nelas. 

Eu - Quando visto camisolas de lã


Por isso é que me prefiro
nuinha.

21/11/14

Foucault e Sartre


Walden





Ser Solidário


Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece

Stirner (2)


Há tanta coisa a queter ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. 

A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo!

 

Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade, Antígona, p. 9

Esperar pelo futuro

Estou à espera de um dia há mais de um ano, conscientemente. Inconscientemente, há mais tempo. Esse dia é para a semana. Tenho um compromisso inadiável à mesma hora, desse mesmo dia.

(E digo isto no blog, como se a frustração partilhada fosse mais leve. Vou deixar de ansiar pelo futuro.)

20/11/14

Stirner

Morre com 29 anos e 8 meses, vitima de uma picada de uma mosca salvadora. E no registo civil anotava-se: nem mãe, nem mulher, nem filhos. Stirner, um morto vivo depois de 1845? Ou mais um suicida da sociedade que, desesperado pela vontade de viver, foi empurrado para a pior espécie de desespero, a esperança? 

Max Stirner, Textos Dispersos, Via Editora. P. 15 (da Apresentação de Max Stirner, J. Bragança de Miranda). 

16/11/14

Sou um intelectual de esquerda


João César Monteiro
Recordações da Casa Amarela

Alice Cooper e Dali


Do dia (15)

Hoje acordei sobressaltada de um pesadelo com exercício físico. Deixei-me estar a ler antes das obrigações dominicais. Preparei apontamentos sobre argumentos dedutivos e indutivos. Liguei o computador. Do outro lado, a menina do costume, mais atormentada que o normal, que o teste é já dia dois, mas eu acho que estou melhor, achas que estou melhor, Laura, tenho medo, é melhor marcarmos já para a semana, e marcámos dias e horas e resumos e apontamentos para as três semanas seguintes. Vamos começar, vamos. Apareceu a mãe em grande plano. Sabes o que me disse a professora de Filosofia sobre ela, que não sabe distinguir o imaginário do real. A mãe disse-mo com um ar sério, como se fosse qualquer coisa de grave.
Eu não pude deixar de pensar que esse é o melhor elogio que alguém pode receber.


Carta ao pai (13)

Imortal na sua inutilidade, o sofrimento havia de existir sempre. Em todas as outras coisas, uma pessoa é grotesca e desprezivelmente finita. Mas, quanto ao sofrimento, já assim não é. Esse coagulozito concentrado e sombrio a que uma pessoa chama o seu 'eu' é susceptível de sofrimento até ao infinito e, apesar da morte, o sofrimento continua eternamente.

Os sofrimentos dos vivos e os sofrimentos dos agonizantes; a rotina de agonias sucessivas na secção de saldos do grande armazém e a crucificação final,  um inferno de vulgaridade feito de lata e de plástico. O facto de uma pessoa ter a consciência de que existe equivale ao facto de ter a consciência de que se encontra sempre só. Tão só (...) como no cancro final, quando uma pessoa supõe que tudo chegou ao fim; só até na imortalidade e no sofrimento.

(Uma pessoa regressa ao passado com tanta facilidade! Com demasiada facilidade. E também demasiadas vezes. - soltou um suspiro profundo e endireitou os ombros.)

Aldous Huxley, A ilha, Antígona, Junho de 2014, pp. 441 e 449.

15/11/14

No cabeleireiro

Estou a ler. 

- A menina gosta de ler? 
- Hum hum...
- Eu também! Quantos livros já leu? 
- Não sei bem...
- A minha neta ofereceu-me no outro dia o meu décimo. 
- E está a gostar? 
- Mais ou menos. Leio página sim, página não. 

14/11/14

Moi - Quand il pleut


Transformo-me na Mary Poppins
(e aprendo a meteorologia em francês. Estou a preparar-me
para o dilúvio.) 

13/11/14

The Passion of Anna







Sobre a nacionalidade

Um dia virá em que a nacionalidade cessará de ser exclusiva; em que será permitido a qualquer indivíduo, viajando para seu prazer ou tratar dos seus assuntos, ser cidadão de várias pátrias. 

Proudhon, La fédération et l'unité en Italie, 1959.

12/11/14

As certezas do meu mais brilhante amor


Assobiando as melodias mais brilhantes
Como o brilhante da certeza de um amor
Como o rubi mais precioso entre os restantes
Que é o da meiguice alternando com ardor

Não negarei ficar assim nesta beleza
Assobiando as melodias mais fugazes
Não é possível nem é simples, com certeza
Mas é vontade que me dá do que me fazes

11/11/14

Eu - Em pânico


Já passou o Halloween
mas continuo em pânico. 
Preciso de uma aguardente.

A morte embate contra si própria

Recordo-me de um jovem - de um homem ainda jovem - impedido de morrer pela própria morte - e talvez por erro da injustiça. (...) Sei - sabê-lo-ei - que aquele que os alemães já tinham na mão, não esperando senão a ordem final, experimentou um sentimento de extraordinária leveza, uma espécie de beatitude (nada, porém, que se parecesse com felicidade) - alegria soberana? O encontro da morte e de morte?

De repente, ele era talvez invencível. Morto - imortal. Talvez o êxtase. Ou antes o sentimento de compaixão pela humanidade sofredora, a felicidade de não ser imortal nem eterno. Doravante, ficou ligado à morte, por uma amizade sub-reptícia.

Mas eis que um deles se aproximou (...) e fez-lhe sinal para desaparecer. Creio que ele se afastou, sempre com o mesmo sentimento de leveza, até que se encontrou num bosque afastado, chamado 'Bois de bruyères'. É no bosque denso que, de repente, e sabe-se lá depois de quanto tempo, ele reencontrou o sentido do real.

Começou sem dúvida então o tormento da injustiça para o jovem. Fim do êxtase; o sentimento de que só estava vivo porque, mesmo aos olhos dos Russos, pertencia a uma classe nobre.

Permanecia, todavia, como no momento em que o fuzilamento estava eminente, o sentimento de leveza que não conseguirei traduzir: liberto da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade. Sei, imagino que este sentimento inanalisável mudou o que lhe restava de existência. Como se a morte fora dele não pudesse doravante senão embater contra a morte nele. 'Estou vivo. Não, estás morto.'

Maurice Blanchot, O instante da minha morte, trad. Fernanda Bernardo, Campo das Letras, p. 8-21.

No café

Estou sentada a escrever no computador, quando se aproxima de mim um miúdo com Síndrome de Down.

- Olá, o que é que estás a fazer?
- Estou a escrever um trabalho.
- Para quê?
- Para a escola, é de filosofia.
- Na minha escola não há disso.
- Quando fores maior, vais ter...
- É difícil?
- Não, ajuda-te a pensar melhor.
- Então porque é que não tenho isso já? Não querem que pense bem?

10/11/14

Nº8


Que beleza.

Eu - Quando não sei o que fazer aos livros acumulados


É um vê se te avias.
Neste momento, estou a precisar do dobro das estantes
ou então de mais espaço debaixo da cama.

(mas tenho ali um novo da Duras que me está a impedir de fazer outra coisa
que não lê-lo.) 

09/11/14

Orlando



What's that?
The future!

Oração da mãe menininha


Afinal já tinha ouvido falar de orixás
mas não me lembrava que
era daqui.

Virginia Woolf

Domingo, 14 de Fevereiro

Hoje está outra vez a chover. Limpei as pratas, o que é uma coisa fácil e proveitosa de se fazer. Voltam a brilhar tão depressa.

Diário, Primeiro Volume 1915-1926, Bertand Editora, p. 47

08/11/14

Os nadadores

Vivemos com o nariz mergulhado no rio do tempo; eis que recuamos, nadadores outrora, passeantes do presente, estamos perdidos. Somos fora da lei, ninguém o sabe, e contudo cada um de nós nos trata como tais. 

Kafka, Antologia de Páginas íntimas, Guimarães Editora, p. 30.

Eu - Quando estou inspirada

Inspiração é só quando eu me ultrapasso
e nem acredito que seja verdadeiramente da espécie humana.

06/11/14

No restaurante

'As cortesãs são profissionais liberais da esquina.'
'Porquê da esquina? São da corte! Corte-sã. Tesão da corte... Nevermind.'

04/11/14

Do dia (13)

Acordei vazia. Tive a certeza que sou cada vez menos corpo onde vivo. Concordaram. Li, chorei e bebi dois cafés. Comprei uma antologia de páginas íntimas de Kafka, irmão mais velho - foi o único objecto que não me pareceu dispensável.
Tomei uma decisão. E bebi outro café.
Pelos vistos, as pessoas vazias gostam de se manter acordadas.

Carta ao Pai (12)

É como se
o meu pai pudesse falar

Seu enorme corpo
Silente e maciço
Sob a pele branca e fria
A merda sólida
A aversão

Homem, macho, seu caralho que eu amei
Sobre todos os outros, sobre a bondade, tão sobre
O prazer amei o seu ódio, a frieza
A indiferença, o negrume sólido

A cabeça voltada para outro lado
Os olhos voltados para outro lado
O peito, as mamas, o fato de banho - metade
De mim, metade meu! Nunca meu, nada,
Não sei qual de nós quero
eu matar por isto mas quero algum
Sangue espesso
Algum carvão no corpo algum
Fogo esse corpo ardente de bourbon
Caralho prometido e nunca dado
Pelo qual eu era capaz de me esfolar.

Agora quebrando o seu silêncio, vejo como te
Extravasas sobre as palavras
Extravasas sobre o fim dos versos
para te suspenderes no espaço negro isolado
Só e humilhado, ali gingando como uma
Estrela, um herói

Eis-me aqui fora contigo
Agora contra o farrapo do silêncio quebrado.

Sharon Olds, p.135

02/11/14

Estar só

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Para a {anita}, que me deixa ver o seu coraçãozinho de robot a trabalhar. 

A família perfeita


Aldous Huxley, A ilha, p. 145

30/10/14

Coisas de vizinhos

Ouvia demasiado alto - e cantava - a Suzanne. Fui para a varanda, continuei a cantoria, até que oiço um acompanhante. O meu vizinho da frente cantava comigo.

28/10/14

Rapariga que mexe a mão enquanto lê ao pé da janela

video

You belong to me


Estou a ouvir isto desde que acordei e já não consigo parar.

Eu - Quando as freiras me castigavam por não comer puré de batata

Qual pimenta na língua
qual quê!
Quando provar cianeto,
venho aqui contar a que é que sabe.

Komurasaki

Komurasaki
Cortesã durante o período Taisho.

Eu - Quando compro tampões para os ouvidos


Finalmente podem falar comigo
sem me interromperem.

Livreiros cultos

'- Tem o livro x, de Proudhon?'
'- De momento, o seu pedido é utópico.' 

27/10/14

Do dia (12)

Hoje, acordei a senti-me uma ilha que vive com a sensação de continentalidade imposta.

26/10/14

A ilha

'- É inacreditável! Nem uma pergunta acerca da qualidade dos nossos sentimentos, pensamentos e percepções. E quanto à sociedade a que é suposto devermos ajustar-nos? Trata-se de uma sociedade louca? De uma sociedade em boas condições mentais? 
Abrindo-se num dos seus sorrisos cintilantes, o embaixador pronunciou-se: 
- Deus torna primeiramente loucos aqueles que deseja destruir. Ou, alternativamente, e talvez até com maior eficiência, torna-os primeiramente sãos.' 

Aldous Huxley, A ilha, Antígona. P. 122.

No café

'Aquela cantora, a Mónica Sintra? Já se foi!'
'Então, morreu?!'
'Não morreu, não! Foi pró Algarve!'

25/10/14

Na inauguração de uma exposição

Aproxima-se uma senhora com alguma idade e uns copos a mais. Aponta firmemente para o meu nariz e diz:
- Olhe, tem um brinco!

(Oh! Que bom que me informou! Alguém tem um guardanapinho?)

13 13 13 13 ...

Se eu morrer antes de você
Faça-me um favor: chore o quanto
quiser, se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir
chorar, não se preocupe
se tiver vontade de
rir ria.
- E se tiver vontade
de rir ria muito...
... se tiver vontade de
escrever alguma coisa sôbre mim; diga apenas uma
frase: «foi meu amigo, acreditou
em mim e me
quis mais
perto de deus».

José Fernandes de Oliveira

23/10/14

Poor unfortunate souls


Do minuto 4.48 em diante.

Brincas todos os dias

Brincas todos os dias com a luz do universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.
Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas. 

Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul? Ah deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.
Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.
Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.

Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.
Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.
Agora, agora também, pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados. 

Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.
O que te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcerem-se os crepúsculos em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do universo. 

Vou trazer-te das montanhas flores alegres, «copihues»,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos. 

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.

Pablo Neruda

22/10/14

Un bel di vedremo




Do you see it? He is coming!
I don't go down to meet him, not I.

I stay upon the edge of the hill
And I wait a long time
but I do not grow weary of the long wait.

He will call Butterfly from the distance
I without answering
Stay hidden
A little to tease him,
A little as to not die.


At the first meeting,
And then a little troubled
He will call, he will call
"Little one, dear wife
Blossom of orange"

The names he called me at his last coming.

Relato de um espião

Um certo Francesco Tartaglia, detido durante doze dias no Castel Nuovo de Napoles por ordem do conselheiro real Don Giovane Sanchez de Luna, ouviu falar várias vezes Fra Tomazo Campanella e Fra Pietro Ponzio. Concretamente, na noite de 14 de Abril, Tartarglia e dois outros guardas da prisão ouviram o que se segue: Fra Pietro chamou quatro vezes Fra Tomazo assim:

Fra P. - Ó Fra Tomazo, Fra Tomazo, Fra Tomazo, ó Tomazo não me ouves, meu doce amigo?
Fra T. - Boa noite! Boa noite!
Fra P. - Ó meu doce coração, como estás tu? Coragem que o mensageiro vem amanhã e nós saberemos qualquer coisa.
Fra T. - Ó Fra Pietro, porque não arranjas maneira de abrir esta porta, pois dormiríamos juntos e seria uma grande alegria.
Fra P. - Deus me permita dar aos guardas dez ducados e a ti, meu doce amigo, dez beijos por hora. Espalhei os teus sonetos por Nápoles inteira e sei-os todos de cor, pois não há nada que eu deseje mais do que ler coisas de ti.
Fra T. - Hei-de dá-los ao mensageiro.
Fra P. - Sim, meu doce coração, mas faz-me graça de mos dar primeiro a mim e a Ferrante meu irmão, e depois fazes uns para o mensageiro.
Fra T. - Vai descansar! Boa noite!

Marguerite Yourcenar, O Tempo esse grande escultor, Difel Difusão Editorial, p. 46

Eu - Quando me perguntam se sou descontraída


Não esperes descontração
Quando a minha missão é dominar.

A criança injustamente castigada

A criança grita no quarto. A raiva
lateja-lhe na cabeça.
Sofre mutações como o metal sob forte
pressão a altas temperaturas.

Quando esfriar e sair por aquela porta
não será a mesma criança que entrou a correr
e bateu com ela. Acrescentou-se uma liga. Agora
há-de rachar em riscos diferentes quando lhe baterem.

Está mais forte. A longa adulteração
começou esta manhã.



Sharon Olds; Satanás Diz; ed. Antígona
tradução de Margarida Vale de Gato

No bar

'O que é que estás a tirar?'
'Gestão. E tu? O que tiraste?'
'Filosofia.'
'Ouh, isso é preciso ter pancada!'

21/10/14

April come she will


September, I'll remember.

Do dia (11)

Hoje acordei tarde e fiquei na cama até mais tarde. O meu corpo anteviu antes da minha consciência que iria ter um dia determinante. Discuti, chorei muito, solucei como um bebé. Determinou-se o dia e abriu-se um caminho. Escreveu à minha frente. Fomos ver o Bambi solto em fotografias. Comemos sushi num banquinho verde de jardim. Demos as mãos na rua sem entrelaçar os dedos. Bebemos cerveja e um brinde a nós. Acabei a tarde a relatar que uma pessoa é um singular e por isso, é universal.

(Agora estou pirosinha, pirosinha. Mas é como se não tivesse culpa.)

Muito


20/10/14

Eu - Quando o meu orientador me vier perguntar o que fiz durante este mês


É melhor levar lenços.
Poderá cair-lhe uma lágrima de comoção
por saber que estou a ficar crescidinha.

De Gilberto Gil para Caetano Veloso


Onde as aproximações e os afastamentos se dessem sempre
sem a perspectiva de separação mas,
antes,
com a garantia elástica da unidade de um despropósito.

O Idiota

With quietism like yours, one could fill a hundred years with happiness.

Dostoyevsky, The idiot.

Eu - À espera de companhia para almoçar


Oh, estou tão só e com tanta fominha... 

Livro de padrões japonês


Para kimonos.
Encontrado aqui.

Eu - A fazer fichas de leitura


Não há ninguém
a querer desbravar comigo
esses densos caminhos do intelecto?
 

19/10/14

O Retrato de Dorian Gray

Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, p. 92

Aos amores!

O meu vizinho de cima coloca banda sonora na minha vida. Infelizmente para mim, é James Blunt, que eu ouvia quando forçava a depressão adolescente. Quando cheguei a casa, estranhei que ele estivesse a ouvir rock.
Fui pôr o lixo na rua. Passou por mim de mãos dadas com outra pessoa. Viva!
As minhas noites terão uma banda sonora mais bonita de hoje em diante, esperemos.

Daquela conversa do homem com três pernas


The Human tripod, Marlene Dumas, 1988
(Pormenor) 

Falo deste post.

17/10/14

Carta ao Pai (10)


Balthus, A Rapariga e o Gato, 1934

Jimmie Durham (e Saramago)

Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbem a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que lhe falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza que toda se está compadecendo do aflito devedor.

Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a proposição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não repararam que doutra maneira não podia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Jimmie Durham, Ricardo Reis, 1995

16/10/14

Argumento

Argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que se ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes.

Pascal Quignard

Deste excelente blogue.

O berlinde comilão

Descobri que há um berlinde que tem nome de quem come o universo. Pensei que a sua boca tinha que ser elástica, pelo menos até conhecermos os seus limites. Desejo que esse berlinde não tenha boqueiras - é que comer o universo pode ser doloroso.

Eu - Quando me tentam motivar no ginásio


'Apoiar os cotovelos! Esticar a perna! Pensem que são um cão a fazer xixi!! Isso, para o lado! Boa! Agora ponham a perna no chão, braços no ar e voem, voem!!'

CVNI
Cão Voador Não Identificado

14/10/14

Leonard Cohen e a amiga


Eu - Com problemas


Oh, driver
can you help this poor, lost, woman? 

Eu - Em pausa


Estou só a descansar
mas não dispenso uma boa
conversinha.
Marotos.

Os estudantes e os autistas entram numa reprografia (onde está um filósofo)

Esperei mais de uma hora por fotocópias, enquanto o senhor debitava para o ar coisas como 'eu acho que os verdadeiros filósofos são os jornalistas de guerra', 'eu não confio nada em quem passa a vida com o rabo sentado a pensar e a fingir que estuda' e 'eu também sou filósofo, mas não gosto de escrever, porque me pára o pensamento'.

Nisto, entra um miúdo com o pai. Passa a correr pelo balcão, diz olá a toda a gente, cumprimenta o senhor filósofo com um grande abraço e sai disparado, com jeitos de miúdo traquinas. 'O menino gosta mesmo de si!', disse eu.

'Não, não gosta. Este miúdo não pensa. É autista.'

No café

'Há coisas às quais não podes dizer, nem sim, nem não. Tens que aceitar e pronto.'
'Como o quê?'
'Como uma relação de muitos anos. Já estás lá, é mais uma perna que tens, para o bem e para o mal.'
'A tua é assim?'
'É.'
'E se disseres que não?'
'Em vez de ficar coxo, fico tri-coxo. A perna é tão grande que as outras duas ficaram enfezadas.'

Isolamento e Solidão

No isolamento, o homem permanece em contacto com o mundo como obra humana; somente quando se destrói a forma mais elementar de criatividade humana, que é a capacidade de acrescentar algo de si mesmo ao mundo ao redor, o isolamento se torna inteiramente insuportável. Isso pode acontecer num mundo cujos principais valores são ditados pelo trabalho, isto é, onde todas as actividades humanas se resumem a trabalhar. Nessas condições, a única coisa que sobrevive é o mero esforço do trabalho, que é o esforço de se manter vivo, e desaparece a relação com o mundo como criação do homem.

Solidão não é estar só. Quem está desacompanhado está só, enquanto a solidão se manifesta mais nitidamente na companhia de outras pessoas. Na opinião de Epicteto (“Dissertationes”, livro 3, capítulo 12), o homem solitário (“éremos”) vê-se rodeado por outros com os quais não pode estabelecer contacto e a cuja hostilidade está exposto.

Hannah Arendt. “O Sistema Totalitário”. P. 588-590.